Thursday, July 23, 2026

ARBUS, FRIEDLANDER E WINOGRAND | NEW DOCUMENTS (1967)

 Arbus, Friedlander, Winogrand - New Documents 1967

“Essa exposição descreve o trabalho desses três jovens fotógrafos que adotaram a estética da fotografia documental para fins não-sociais e pessoais”. - John Szarkowski

New Documents foi uma exposição realizada no Museu de Arte de Nova York (MoMA) em 1967, com curadoria do então diretor do departamento de fotografia John Szarkowski (1925-2007). Mostrou o trabalho de apenas três fotógrafos: Diane Arbus (1923-1971), Lee Friedlander (n.1934) e Garry Winogrand (1928-1984). É considerada uma das exposições mais relevantes do século XX.

Szarkowski observou que fotógrafos documentaristas de gerações anteriores, como Lewis Hine, Jacob Riis e Dorothea Lange, faziam seu trabalho em nome de causas sociais, com o objetivo de mostrar o que estava errado no mundo. Com isso, esperavam persuadir quem visse suas fotos a agir para mudar essa realidade. Por volta de 1960, no entanto, uma nova geração de fotógrafos passou a usar suas câmeras em nome de algo muito mais pessoal: não desejavam mudar o mundo, mas conhecê-lo e experimentá-lo como ele já era.

Essa costuma ser a principal ideia associada à exposição, comumente reduzida a “eles não queriam mudar o mundo”, mas o texto de Szarkowski vai além. Segundo ele, Arbus, Friedlander e Winogrand não apenas deixaram de lado a ambição de transformar a sociedade como também desconfiavam das grandes justificativas intelectuais para fotografar. O que os movia era a curiosidade, o fascínio e, muitas vezes, o estranhamento diante da vida comum. Szarkowski via nos três a expressão mais acabada dessa nova atitude diante da fotografia, ainda que suas raízes pudessem ser percebidas em trabalhos produzidos alguns anos antes. Embora possuíssem estilos e pontos de vista bastante distintos, compartilhavam a convicção de que o cotidiano merecia um olhar atento, sem grandes justificativas para fotografá-lo.

“Talvez esses três fotógrafos preferissem que suas fotografias fossem vistas não como arte, mas como vida. Isso não é inteiramente possível porque, afinal de contas, uma fotografia é apenas uma fotografia. Mas essas fotografias podem muito bem mudar nossa percepção de como é a vida”, afirmou Szarkowski. Daí o nome New Documents, que sugeria uma redefinição da função e do propósito da fotografia documental.

Diane Arbus nos mostrava, por meio de seus retratos, que todos nós, fôssemos comuns ou exóticos, éramos fascinantes quando vistos de perto. Lee Friedlander, por sua vez, tinha uma visão eclética do que merecia ser fotogrado, das vitrines tão presentes em seu trabalho e de seus autorretratos originais ao interior das casas das pessoas. Já Garry Winogrand tinha um gosto pela vida que superava seu respeito pela arte e mostrava o lado bem-humorado e vulgar da humanidade.

O LIVRO

Na ocasião da exposição, em 1967, não foi publicado um catálogo para acompanhá-la. Em 2017, para marcar os 50 anos de New Documents, o MoMA publicou este livro, que reúne uma grande quantidade de material relacionado ao evento: fotografias da abertura, listas de convidados de cada fotógrafo, matérias publicadas em jornais como o New York Times e cartas enviadas ao museu por visitantes, tanto elogiando quanto criticando a exposição, entre muitas outras coisas interessantes.

Após o encerramento no Museu de Arte Moderna de Nova York, a exposição percorreu mais de dez outras instituições nos Estados Unidos e no Canadá, entre elas o Museu de Arte de São Francisco e as universidades do Missouri e Cornell. A equipe de Szarkowski enviava todo o material da exposição acondicionado em apenas duas caixas para cada instituição interessada, tornando a instalação muito mais simples, especialmente em museus e universidades menores, com menos infraestrutura do que o MoMA.

O livro reproduz o texto original de Szarkowski que, como a maior parte do que ele escreveu, é extremamente prazeroso de ler e ajuda a compreender o contexto das ideias que procurava materializar. Traz também o texto que o escritor, crítico e fotógrafo Max Kozloff publicou na revista semanal The Nation quando a exposição foi inaugurada, além de outro ensaio escrito especialmente para a edição de 2017. Completam a publicação textos de Sarah Meister, então curadora do Departamento de Fotografia do MoMA, e de Glenn D. Lowry, diretor do museu entre 1995 e 2025.

A seleção de Diane Arbus reúne alguns de seus retratos mais conhecidos, como as gêmeas de Roselle e o jovem com bobes no cabelo. Há também um grande número de fotografias de nudistas, mas nenhuma de suas visitas a circos.

A seleção de Lee Friedlander é mais variada. Além de suas conhecidas fotografias de rua, estão presentes as famosas imagens de televisores ligados dentro de ambientes domésticos. Ao contrário de Arbus, que fotografou principalmente nos arredores de Nova York, Friedlander percorreu boa parte dos Estados Unidos. Não por acaso, costuma ser considerado o equivalente visual de Jack Kerouac, escritor da Beat Generation.

Dos três, Winogrand é o fotógrafo com cuja obra tenho menos familiaridade. Assim como Friedlander, sua seleção reúne imagens produzidas em diferentes cidades do país, embora ele seja mais conhecido pela fotografia de rua em Manhattan. Aliás, para quem — como eu — o associa fortemente a esse gênero, muitas das fotografias apresentadas aqui fogem bastante dessa expectativa.

Outra coisa que chama a atenção é o tamanho das fotografias. Vistas hoje, elas parecem surpreendentemente pequenas quando comparadas às ampliações que passaram a dominar galerias, museus e feiras de arte nas últimas décadas. A partir da fotografia digital, impressões em grandes formatos tornaram-se cada vez mais comuns e valorizadas. Em New Documents, porém, a escala era bem diferente. Além de refletir outra época da fotografia, acabava tornando a exposição mais simples de transportar e montar em outras instituições.