Sunday, August 23, 2026

THOMAS SAUVIN | BEIJING SILVERMINE

 Beijing Silvermine : An Archive of Contemporary China - The Eye of  Photography Magazine

“No começo, achei que seria uma coisa única. Ele me vendeu um saco enorme. Mas, a cada um ou dois meses, ele voltava a me ligar e, durante quatro anos, continuei comprando todos os negativos que ele conseguia. Hoje, o arquivo tem mais de meio milhão de negativos. Foi assim que tudo começou.”

Thomas Sauvin (n. 1983) é um colecionador, pesquisador, artista e curador francês, conhecido por seu trabalho com fotografia vernacular e arquivos fotográficos. Sua atuação envolve a pesquisa, preservação e reorganização de imagens anônimas e encontradas, que utiliza como ponto de partida para livros, exposições e projetos realizados em colaboração com outros artistas.

Photobooks - Skinnerboox

Em 2009, Sauvin descobriu que grandes quantidades de negativos descartados em Pequim acabavam em uma usina de reciclagem nos arredores da cidade. O material era recolhido por catadores e vendido para extração do nitrato de prata presente nos filmes. Fez um acordo com a usina e passou a comprar os negativos por quilo antes que fossem destruídos. Desde então, reuniu quase um milhão de imagens que foram limpas, digitalizadas e organizadas em um arquivou que chamou de Beijing Silvermine (A Mina de Prata de Pequim).

“A quantidade de imagens envolvidas me permitiu contar não apenas histórias individuais, mas algo mais universal. Muitas vezes ouço as pessoas dizerem que essas imagens mostram uma face da China que elas nunca tinham visto antes.”

Produzidas principalmente entre 1985 e 2005, as fotografias são o registro da vida cotidiana dos moradores da cidade, em uma época em que câmeras e filmes coloridos se tornaram mais acessíveis à população. São imagens anônimas de casamentos, aniversários, viagens, reuniões familiares, passeios e novos bens de consumo. Separadas, pertencem a milhares de histórias particulares; reunidas, formam um registro da maneira como pessoas comuns fotografavam a própria vida em um período de grandes transformações na China.  

Beijing Silvermine tornou-se o projeto mais conhecido de Sauvin. Um dos primeiros trabalhos extraídos do arquivo foi Until Death Do Us Part (Até que a Morte nos Separe), publicado em 2015, sobre o papel inesperado dos cigarros nos casamentos chineses. Como forma de agradecimento, é tradição a noiva acender um cigarro para cada homem convidado e os noivos também participam de diferentes brincadeiras envolvendo cigarros na celebração. O costume carrega um simbolismo peculiar: amor e morte caminham lado a lado. Sauvin reuniu fotografias desses rituais encontradas nos arquivos e as publicou em um livro no formato de um maço, reforçando essa associação já presente na tradição.

O arquivo também deu origem a trabalhos realizados em colaboração. Com o artista chinês Lei Lei, Sauvin criou projetos a partir de sequências de fotografias encontradas; com o artista japonês Kensuke Koike, desenvolveu No More No Less, no qual fotografias do arquivo foram recortadas e reorganizadas para produzir novas imagens sem acrescentar ou retirar material das fotografias originais. Em On This Day, realizado com os suecos Klara Källström e Thobias Fäldt, imagens pessoais do arquivo foram relacionadas a acontecimentos históricos ocorridos nas mesmas datas.

Esses trabalhos mostram uma característica importante do Beijing Silvermine: as fotografias não são tratadas apenas como documentos individuais. A escala do arquivo permite encontrar repetições que dificilmente seriam percebidas dentro de um álbum de família: as mesmas poses, situações, objetos, cenários e maneiras de se colocar diante da câmera aparecem inúmeras vezes, fotografadas por pessoas diferentes.

O resultado é um arquivo construído a partir de acontecimentos banais, e não dos grandes episódios políticos e econômicos normalmente usados para contar a história recente da China. O que aparece são férias, festas, casamentos, passeios, compras e encontros familiares: aquilo que seus autores decidiram fotografar e guardar. Imagens que estavam prestes a ser destruídas acabaram preservando uma história cotidiana de Pequim contada por milhares de fotógrafos anônimos.

Na página principal da galeria, as fotografias seguem um sequenciamento particularmente interessante: começam com bebês e passam por crianças e adolescentes, lembrando a organização de The Family of Man, de Edward Steichen. Há também relações cromáticas entre imagens sucessivas, que ajudam a criar uma continuidade visual ao longo da sequência.

Untitled from the Beasts series

Untitled from the Beasts series

Untitled from the Mirror Twins series

Thomas Sauvin - Until Death Do Us Part

Thomas Sauvin - Until Death Do Us Part

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