“Essa exposição descreve o trabalho desses três jovens fotógrafos que adotaram a estética da fotografia documental para fins não-sociais e pessoais”. - John Szarkowski
New Documents foi uma exposição realizada no Museu de Arte
de Nova York (MoMA) em 1967, com curadoria do então diretor do departamento de
fotografia John Szarkowski (1925-2007). Mostrou o trabalho de apenas três
fotógrafos: Diane Arbus (1923-1971), Lee Friedlander (n.1934) e Garry Winogrand
(1928-1984). É considerada uma das exposições mais relevantes do século XX.
Szarkowski observou que fotógrafos documentaristas de gerações
anteriores, como Lewis Hine, Jacob Riis e Dorothea Lange, faziam seu trabalho
em nome de causas sociais, com o objetivo de mostrar o que estava errado no
mundo. Com isso, esperavam persuadir quem visse suas fotos a agir para mudar essa
realidade. Por volta de 1960, no entanto, uma nova geração de fotógrafos passou
a usar suas câmeras em nome de algo muito mais pessoal: não desejavam mudar o
mundo, mas conhecê-lo e experimentá-lo como ele já era.
Essa costuma ser a principal ideia associada à exposição, comumente
reduzida a “eles não queriam mudar o mundo”, mas o texto de Szarkowski vai
além. Segundo ele, Arbus, Friedlander e Winogrand não apenas deixaram de lado a
ambição de transformar a sociedade como também desconfiavam das grandes
justificativas intelectuais para fotografar. O que os movia era a curiosidade,
o fascínio e, muitas vezes, o estranhamento diante da vida comum. Szarkowski
via nos três a expressão mais acabada dessa nova atitude diante da fotografia, ainda
que suas raízes pudessem ser percebidas em trabalhos produzidos alguns anos
antes. Embora possuíssem estilos e pontos de vista bastante distintos,
compartilhavam a convicção de que o cotidiano merecia um olhar atento, sem
grandes justificativas para fotografá-lo.
“Talvez esses três fotógrafos preferissem que suas
fotografias fossem vistas não como arte, mas como vida. Isso não é inteiramente
possível porque, afinal de contas, uma fotografia é apenas uma fotografia. Mas
essas fotografias podem muito bem mudar nossa percepção de como é a vida”,
afirmou Szarkowski. Daí o nome New Documents, que sugeria uma
redefinição da função e do propósito da fotografia documental.
Diane Arbus nos mostrava, por meio de seus retratos,
que todos nós, fôssemos comuns ou exóticos, éramos fascinantes quando vistos de
perto. Lee Friedlander, por sua vez, tinha uma visão eclética do que merecia
ser fotogrado, das vitrines tão presentes em seu trabalho e de seus
autorretratos originais ao interior das casas das pessoas. Já Garry Winogrand
tinha um gosto pela vida que superava seu respeito pela arte e mostrava o lado bem-humorado
e vulgar da humanidade.
O LIVRO
Na ocasião da exposição, em 1967, não foi publicado um
catálogo para acompanhá-la. Em 2017, para marcar os 50 anos de New Documents,
o MoMA publicou este livro, que reúne uma grande quantidade de material
relacionado ao evento: fotografias da abertura, listas de convidados de cada
fotógrafo, matérias publicadas em jornais como o New York Times e cartas
enviadas ao museu por visitantes, tanto elogiando quanto criticando a
exposição, entre muitas outras coisas interessantes.
Após o encerramento no Museu de Arte Moderna de Nova York, a
exposição percorreu mais de dez outras instituições nos Estados Unidos e no
Canadá, entre elas o Museu de Arte de São Francisco e as universidades do
Missouri e Cornell. A equipe de Szarkowski enviava todo o material da exposição
acondicionado em apenas duas caixas para cada instituição interessada, tornando
a instalação muito mais simples, especialmente em museus e universidades
menores, com menos infraestrutura do que o MoMA.
O livro reproduz o texto original de Szarkowski que, como a
maior parte do que ele escreveu, é extremamente prazeroso de ler e ajuda a
compreender o contexto das ideias que procurava materializar. Traz também o
texto que o escritor, crítico e fotógrafo Max Kozloff publicou na revista
semanal The Nation quando a exposição foi inaugurada, além de outro
ensaio escrito especialmente para a edição de 2017. Completam a publicação
textos de Sarah Meister, então curadora do Departamento de Fotografia do MoMA,
e de Glenn D. Lowry, diretor do museu entre 1995 e 2025.
A seleção de Diane
Arbus reúne alguns de seus retratos mais conhecidos, como as gêmeas de Roselle
e o jovem com bobes no cabelo. Há também um grande número de fotografias de
nudistas, mas nenhuma de suas visitas a circos.
A seleção de Lee
Friedlander é mais variada. Além de suas conhecidas fotografias de rua, estão
presentes as famosas imagens de televisores ligados dentro de ambientes
domésticos. Ao contrário de Arbus, que fotografou principalmente nos arredores
de Nova York, Friedlander percorreu boa parte dos Estados Unidos. Não por
acaso, costuma ser considerado o equivalente visual de Jack Kerouac, escritor
da Beat Generation.
Dos três, Winogrand é
o fotógrafo com cuja obra tenho menos familiaridade. Assim como Friedlander,
sua seleção reúne imagens produzidas em diferentes cidades do país, embora ele
seja mais conhecido pela fotografia de rua em Manhattan. Aliás, para quem — como
eu — o associa fortemente a esse gênero, muitas das fotografias apresentadas
aqui fogem bastante dessa expectativa.
Outra coisa que chama a atenção é o tamanho das fotografias. Vistas hoje, elas parecem surpreendentemente pequenas quando comparadas às ampliações que passaram a dominar galerias, museus e feiras de arte nas últimas décadas. A partir da fotografia digital, impressões em grandes formatos tornaram-se cada vez mais comuns e valorizadas. Em New Documents, porém, a escala era bem diferente. Além de refletir outra época da fotografia, acabava tornando a exposição mais simples de transportar e montar em outras instituições.