Monday, June 15, 2026

ABELARDO MORELL E A CÂMARA ESCURA (REVISITADO)

 About the Exhibition

"Minha alegria está em tentar descobrir novas maneiras de transformar algo muito conhecido em algo diferente."

Abelardo Morell (1948) é um artista nascido em Cuba que vive nos Estados Unidos desde os anos 1960. Ficou conhecido por criar imagens usando câmaras escuras em diversos lugares do mundo. Seu trabalho vai além da fotografia entendida apenas como registro: ao longo da carreira, Morell vem realizando experiências envolvendo lentes, foco, exposições longas e múltiplas, além de diferentes materiais e superfícies. Movido pela curiosidade, testa ideias e observa como se comportam na prática. No processo, produz imagens fascinantes que ajudam a revelar os próprios mecanismos da fotografia.

Em 1988, Morell dava aulas em um curso introdutório de fotografia em uma escola de artes em Massachussetts. Em um dia ensolarado, cobriu as janelas da sala de aula com plástico preto, deixando o ambiente escuro como uma caverna, e fez um pequeno furo no material. A parede do fundo ganhou vida como uma tela de cinema: nela, o exterior aparecia em tempo real de cabeça para baixo, com prédios, árvores, carros e pedestres em movimento. Morell tinha transformado a sala em uma câmara escura, talvez o dispositivo mais antigo para formação de imagens. Para seus alunos, foi uma revelação: uma aula visual sobre o que uma câmera fotográfica faz, com eles literalmente dentro dela.  

Morell já vinha fazendo experiências semelhantes em casa. Levou meses para dominar a técnica, especialmente para determinar o tamanho ideal da abertura que permitisse a entrada de luz sem comprometer a nitidez da imagem. A primeira tentativa aconteceu no quarto do seu filho, onde posicionou uma câmera de grande formato em um tripé, com uma exposição de mais de oito horas para registrar a projeção que ocupava o ambiente. A partir daí, iniciou uma série de fotos em diferentes locais, especialmente quartos de hotel, Camera Obscura, que se tornou uma das mais conhecidas da sua obra.  

Depois dos quartos de hotel, Morell criou câmaras escuras usando barracas. A ideia surgiu quando quis fotografar paisagens em locais onde não havia hotéis. Seu primeiro projeto foi realizado no Oeste americano. Fascinado pelas fotografias do século XIX de Carleton Watkins e Timothy H. O'Sullivan, decidiu revisitar cenários semelhantes, mas por meio de uma abordagem completamente diferente.

Para isso, desenvolveu uma barraca-câmera à prova de luz e instalou em seu teto um prisma com lente que projetava a paisagem ao redor sobre o chão do interior. Em seguida, fotografava essa projeção com uma câmera de grande formato. A barraca-câmera lhe deu a liberdade de utilizar sua técnica em lugares onde antes seria impossível trabalhar. Mais tarde, viajou para o interior da França para produzir a série Pictures on the Ground, realizada em locais associados às paisagens pintadas por Claude Monet e Vincent van Gogh.

Ao longo de décadas de experimentação, Morell transformou um dos princípios mais antigos da fotografia em uma fonte inesgotável de invenção visual, encontrando novas maneiras de olhar para um mundo que julgávamos conhecer.

How to make your own camera obscura - The Village at Black Creek

A câmara escura funciona como um olho gigante. A luz entra por um pequeno furo e projeta, na parede oposta, uma imagem invertida do mundo exterior. Parece algo mágico, mas é apenas o comportamento natural da luz. Nosso cérebro está acostumado a corrigir essa inversão, por isso não percebemos que as imagens atravessam nossos olhos de cabeça para baixo.

Vermeer and the Camera Obscura, Part One

Vermeer's camera obscura: amazing technique or cheating?

Uma versão portátil se tornou popular no século XVII: ao invés da câmara, uma caixa com uma lente acoplada no furo. Há suspeitas de que Vermeer usava uma em seus desenhos, enquanto cientistas usavam para observar eclipses solares. No século XIX, começou-se a colocar papéis quimicamente tratados e nascia a fotografia.

My Glasses, 1989

My glasses, 1989

My Camera and Me, 1990

My Camera and Me, 1990

Light Bulb, 1991

Light Bulb, 1991. Quando era professor-assistente, Morell quis fotografar o processo fotográfico e, para isso, usou materiais simples. Ele não estava simplesmente fotografando o mundo, mas nos mostrando constantemente como a fotografia acontece.

Book and Camera, in Memory of Fox Talbot, 1999

Book and camera, in Memory of Fox Talbot, 1999

Light Entering Our House, 2004

Light entering the house, 2004

Motion Study of Falling Pitchers, 2004

Motion studies of falling Pitchers, 2004

Construction with Lasers and Mirrors, 2005

Construction with lasers and Mirrors, 2005 

Camera Obscura- View of Brookline in Brady's Room, 1992

View of Brookline in Brady’s Room, 1992. A câmara escura gigante é uma aula visual sobre o que uma câmera faz. O furo feito no plástico que cobre a janela serve apenas para projetar a cena que está acontecendo do lado de fora, como se fosse um filme invertido. Já se sabia desse fenômeno muitos e muitos séculos atrás. O que Niépce, Talbot e Daguerre, entre outros, estavam tentando aperfeiçoar no século XIX, eram formas de fixar uma imagem em um papel dentro da câmara.

Camera Obscura- The Empire State Building in Bedroom, 1994

The Empire State Building in Bedroom, 1994

Camera Obscura- Image of Boston’s Old Customs House in Hotel Room, 1999

Boston’s Old Customs House in Hotel Room, 1999

Camera Obscura- Times Square in Hotel Room, 1997

Times Square in Hotel Room, 1997

Camera Obscura- Times Square in Hotel Room, 2010

Times Square in Hotel Room, 2010. Com as câmeras digitais, o tempo de exposição pôde ser reduzido de muitas horas para poucos minutos.

Camera Obscura- Santa Maria della Salute in Palazzo Bedroom, Venice, Italy, 2006

Santa Maria Della Salute in Palazzo Bedroom, Venice, Italy, 2006

Camera Obscura- View of Central Park Looking North-Winter, 2013

View of Central Park Looking North – Winter, 2013

Camera Obscura, View of Lower Manhattan, Sunrise, 2022

View of Lower Manhattan, Sunrise, 2022

Abelardo Morell-Tent Camera-12 - ANDANAfoto.com

Morell é um cientista na forma como aborda sua prática fotográfica, trabalha no sentido de investigar a própria magia do processo. Ele usa a fotografia para pensar a fotografia.

Tent/Camera Process

A barraca-câmera de Abelardo Morell é uma estrutura de tecido que bloqueia a luz e cobre um grande tripé especialmente adaptado. No topo há um prisma com lente que funciona como um periscópio, projetando no chão uma imagem da paisagem ao redor. A nitidez dessa projeção pode ser ajustada alterando a altura da barraca. Ao lado do prisma há uma câmera digital apontada para baixo, fotografando o chão onde a paisagem foi projetada. O resultado combina os detalhes reais da superfície — como pedras, grama, terra ou concreto — com a imagem da paisagem sobreposta a ela. Isso cria fotografias que lembram pinturas, misturando textura e imagem de uma forma incomum. A câmera é ligada a um computador do lado de fora da barraca, permitindo que Morell controle o enquadramento e o foco com precisão. O mais interessante é que, na prática, ele transforma o próprio chão em uma espécie de tela fotográfica. A paisagem é projetada sobre uma superfície real e depois fotografada, criando uma fusão entre o lugar e sua representação — uma imagem que mostra simultaneamente o mundo e uma fotografia do mundo.

Tent-Camera Image: View of the Golden Gate Bridge From Battery East, 2012

Tent-Camera Image. View of the Golden Gate Bridge From Battery East, 2012

Tent-Camera Image: View of Monet's Garden #2, Giverny, France, 2023

Tent-Camera Image: View of Monet’s Garden, Giverny, France, 2023. After Monet foi um projeto que Morel começou nos verões de 2015 e 2016 em Giverny, Rowen e outras regiões da Normandia onde Claude Monet pintava seus quadros.

Tent-Camera Image: Yew Tree in Monet's Garden, Giverny, France, 2023

Tent-Camera Image: Yew Tree in Monet’s Garden, Giverny, France, 2023

Tent-Camera Image: Sunflower Field on Ground with Broken Tiles, Near Arles, France, 2022

Tent-Camera Image: Sunflower Field on Ground with Broken Tiles, Near Arles, France, 2022. Depois da série na região onde Monet pintava, Morell fez a mesma coisa em Arles, Saint-Remy e outras locais do sul da França onde Van Gogh pintou e fez a série “Pictures on the Ground: In the Terrain of Van Gogh”.

Tent-Camera Image: Six Cypresses, Near Arles, France, 2022

Tent-Camera Image: Six Cypresses, Near Arles, France, 2022

 

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