“Com a câmera, é tudo ou nada. Ou você consegue
imediatamente o que procura, ou o que faz não vale nada.”
Escrevi esse post em 2017, quando comecei a estudar
fotógrafos notáveis. Até pouco tempo antes, nunca tinha ouvido falar de Walker
Evans, sequer tinha visto algumas de suas fotos mais famosas. Evans foi o
pioneiro na tradição documental da fotografia americana, influenciou vários
fotógrafos como Frank e Friedlander e, no final de sua vida, foi tratado como celebridade
na universidade de Yale, onde deu aulas. Nos deixou como legado, um catálogo
visual extraordinário de sua era e teve tantas realizações que é impossível
falar dele em um fôlego só!
Walker Evans nasceu em 1903 em Saint Louis, no Missouri,
em uma família de classe alta. Seu pai foi um executivo de publicidade que, por
conta do trabalho, se mudou com a família para diversas cidades americanas.
Evans se instalou em Nova York quando saiu de casa, onde trabalhou na
biblioteca pública no turno da noite, mas decidiu partir para Paris por conta
de suas aspirações literárias. Voltou depois de um ano e arranjou um emprego em
Wall Street.
Começou na fotografia em 1928, trabalhando como fotógrafo
comercial e fotojornalista. Enquanto os Estados Unidos mergulhavam na Grande Depressão,
Evans vivia uma fase de sucesso, em especial por seu trabalho para a Farm
Security Administration (FSA) – um órgão do governo criado para avaliar a situação
das pessoas nas áreas agrícolas e promover seu desenvolvimento. Em 1936, durante
uma licença, viajou com o escritor James Agee para Hale County no Alabama, a
princípio para fazerem uma matéria para a revista Fortune, que nunca foi
publicada. O material produzido por eles se tornou mais tarde o livro Let Us
Now Praise Famous Men (Elogiemos Homens Ilustres na Edição Brasileira).
Continuou na FSA até 1938, mesmo ano em que teve sua primeira
retrospectiva de carreira, American Photographs, no Museu de Arte Moderna de
Nova York (MoMA), que também foi a primeira do museu dedicada a um único fotógrafo.
Também em 1938 começou uma investigação social no metrô da cidade, na qual
passou três anos fotografando secretamente outros passageiros.
Entre 1940 e 1950, obteve três bolsas Guggenheim, que
usou para dar continuidade à documentação da vida das pessoas na América contemporânea,
trabalhou para as revistas Time e Fortune e, mais tarde, como professor na escola
de arte da Universidade de Yale.
Apesar de ter sido crítico da fotografia colorida,
afirmando inúmeras vezes que “cor é vulgar”, começou a usar uma Polaroid SX-70
em 1973, quando estava com 70 anos. Essa nova empreitada proporcionou a Evans
uma renovação porque ele estava deprimido desde sua separação de Jane Smith
Ninas (apesar de ter começado um novo casamento em 1960) e a morte de James
Agee na década de 1950. Além disso, estava doente e debilitado. Foi nessa época
que foi convidado para dar aulas em Yale, onde era idolatrado por seus colegas
e alunos, presentes em sua vida e que o ajudavam.
Estima-se que Evans tenha tirado mais de 3000
instantâneos com a Polaroid – lembrando que a empresa lhe enviava quantidades
inesgotáveis de filme. Nessa fase, sua fotografia é marcada por imagens
detalhadas e próximas, algumas até abstratas. Além disso, retratava amigos e
conhecidos, tendo preferência por mulheres jovens que queria impressionar em
festas, tirava várias fotos delas e só ficava com as que gostava, dando-lhes as
demais.
Teve um derrame e morreu em seu apartamento em 1975. Há
uma foto dele tirando fotos na rua poucos meses antes de sua morte: enquanto
viveu, Evans se dedicou à fotografia. Em 1994 seu acervo foi doado para o
Metropolitan Museum de Nova York, o Met, que possui todo seu trabalho com
exceção dos negativos da FSA que são de domínio público e estão na Library of
Congress.
Evans descrevia seu ato de fotografar como “um interesse
na aparência que o presente terá no futuro” e se definia como um fotógrafo
documentarista lírico, alguém interessado em imagens exatas e alusivas,
objetivas e associativas, livres de inflexão retórica, mas não de compaixão.
Entre seus trabalhos mais notáveis estão:
· The Crime of Cuba (1933) livro documentário de Carleton Beals sobre a influência dos EUA na ilha na década de 1930. Contém 30 fotografias de Evans – essa foi a única ocasião que ele fotografou fora do seu país.
· Documentação para FSA;
· American Photographs: Exposição no MoMA em 1938, que foi sua primeira retrospectiva de carreira de Evans e também a primeira dedicada a um único fotógrafo no museu. Foi publicado um catálogo dela que ainda pode ser facilmente encontrado.
· Let us No Praise Famous Men (1941);
· Retratos no metrô de Nova York (1938-1941);
· Polaroids.
Da série 13 Autorretratos (acima)
- Amor Towles sobre as fotos de Walker Evans em seu livro Rules of Civility;
- Brown Brothers Harriman Collection: Walker Evans Portfolio (Fotografias corporativas para o artigo Partners in Banking que celebrava os 150 anos da corporação);
- 17 Coisas que Walker Evans me ensinou sobre fotografia de rua (Eric Kim);
- Walker Evans – “Many are Called” (1938)
- Perfil no Metropolitan Museum of Art;
- Vídeo: O fotógrafo mais influente de todos os tempos (Developing Tank);
- Vídeo: Jeff Wall fala de Walker Evans;
- Vídeo: Walker Evans Bonanza! (Stephen Leslie);
- An American Eye: Clément Cheroux fala sobre Walker Evans (SFMoMA);
- Walker Evans e os Cartões-Postais (exposição realizada no MoMA em 2009);