“Em meados dos
anos 1980, a noção de que uma fotografia apresenta uma representação objetiva
da realidade estava sendo questionada por muitos fotógrafos, inclusive por mim.
Como o significado é atribuído a uma imagem? Como o enquadramento, o ponto de
vista, a representação e todas as outras escolhas feitas por um fotógrafo
influenciam esse significado? Uma fotografia pode realmente capturar a verdade?
Eu argumentaria que uma fotografia contém sua própria verdade — ou ficção — e é
aí que reside sua força. O fato de confiarmos naquilo que a fotografia nos
mostra alimenta esse conceito, dando-lhe credibilidade.”
O interesse de Mary Frey pela fotografia começou quando,
ainda na faculdade, encontrou uma cópia de The Decisive Moment, de
Cartier-Brésson. O que mais a fascinou naquelas imagens não foi somente a
capacidade de registrar um acontecimento quando ocorria, mas a maneira como a
fotografia podia conter sua própria ficção. Essa questão estaria no centro de
dois de seus principais trabalhos (Domestic Rituals e Real Life Dramas), nos
quais cenas cuidadosamente construídas assumem a aparência de acontecimentos
espontâneos. Uma fotografia PARECE documental sem necessariamente SER
documental, possibilidade explorada de diferentes maneiras por fotógrafos como
Jeff Wall, Gregory Crewdson e Philip-Lorca DiCorcia, entre outros.
Mary Frey (1948-) é uma fotógrafa americana que estudou na
Universidade de Yale na década de 1970 e lecionou por mais de 30 anos. Seu
trabalho começou a ganhar reconhecimento na década de 1980, período em que
produziu suas séries mais conhecidas e participou de importantes exposições no
MoMA. Posteriormente, Frey diminuiu sua atuação no circuito artístico para se
dedicar à família e ao ensino.
A série Domestic Rituals foi produzida entre 1979 e 1983 e
nasceu do interesse de Frey pelo snapshot como registro e como formador da
memória, combinado à sua curiosidade pela aparente capacidade da fotografia
direta da oferecer uma representação verdadeira e precisa de um acontecimento.
As imagens mostram atividades banais da vida cotidiana, como pessoas
cozinhando, tomando café, arrumando o cabelo, e poderiam facilmente ser
interpretadas como registros espontâneos da vida doméstica de famílias de
classe média.
Nada nelas, porém, é tão espontâneo quanto parece: Frey
procurava deliberadamente essas situações, organizava pessoas e objetos e
dirigia seus sujeitos para que parecessem realmente envolvidos nas atividades
que estavam realizando. Fotografadas em preto e branco com câmera de grande
formato e iluminação difusa de flash, as cenas adquirem a aparência quase
documental que ela buscava, embora tenham sido construídas como pequenos
tableaux vivants.
Frey não tinha como objetivo criar uma ficção para fazê-la
passar por realidade, mas usar essa ambiguidade para questionar a credibilidade
que atribuímos à fotografia. Ela chama suas construções de “iconografia dos
costumes da classe média” – iconografia aqui, dizendo respeito a um repertório
de elementos visualmente reconhecíveis que, repetidos e associados entre si, passam
a representar uma determinada maneira de viver.
Em Real Life Dramas, realizado entre 1984 e 1987, Frey
continuou explorando os limites entre acontecimento e encenação, mas introduziu
algumas mudanças importantes: adotou filme colorido e acrescentou textos às
fotografias. As situações continuavam sendo inteiramente preconcebidas e
construídas e, como em Domestic Rituals, continuaram conservando uma aparência
documental. Os textos eram gerados fotograficamente e impressos nas molduras
brancas das imagens, imitando a linguagem melodramática da ficção popular
barata.
Em 1986, a série foi parte da exposição New Photography 2,
realizada no MoMA, e Frey retornaria à instituição em uma exposição que se
tornaria uma importante referência para a fotografia daquele período: Pleasures
and Terrors of Domestic Comfort, organizada por Peter Galassi em 1991.
Apesar da presença nessas exposições e o reconhecimento
recebido no início da carreira, Frey permaneceu relativamente fora do circuito
nas décadas seguintes. Ao diminuir sua atuação pública para dedicar-se à
família e à carreira de professora, boa parte de seu trabalho permaneceu
conhecida apenas por quem o havia acompanhado originalmente. Em 2017 isso
mudou, quando as fotografias de Domestic Rituals foram reorganizadas e
publicadas no livro Reading Raymond Carver. No ano seguinte, Real Life Dramas
também ganharam um livro.
Um outro aspecto interessante no trabalho de Mary Frey é
que, mesmo encenadas, suas fotografias acabaram se tornando documentos do mundo
em que foram produzidas. As situações podem ter sido construídas para a câmera,
mas as roupas, objetos, interiores, gestos e códigos sociais pertencem àquele
tempo. A fotografia pode não registrar um acontecimento verdadeiro e, ainda
assim, registrar o mundo que tornou aquela cena possível.
Woman with Pie (Mulher com Torta), Domestic
Rituals. Os títulos de Domestic Rituals são descritivos e impessoais. Ao
invés de identificar as pessoas ou sugerir histórias particulares, eles reduzem
as cenas a uma espécie de fórmula: uma pessoa, um objeto, uma atividade. Neles,
há algo que remete a um catálogo ou manual de conduta, como se Frey estivesse
inventariando comportamentos e pequenos rituais da classe média. A fotografia é
repleta de detalhes particulares, o título transforma a situação em uma
categoria.
Vistas assim, as
fotografias adquirem um caráter quase antropológico, como um catálogo de
costumes de uma determinada sociedade e de uma determinada época. Mesmo que as
situações tenham sido encenadas, elas preservam roupas, objetos, interiores, gestos
e comportamentos que, até então, pareciam formar uma representação plausível da
vida cotidiana. A fotografia pode não documentar um acontecimento verdadeiro e,
ainda assim, documentar o mundo que tornou essa representação possível.
Women at Coffee
Break (Mulheres na Pausa para o Café
Woman Applying Make-Up (Mulher Passando
Maquiagem), Domestic Rituals.
Woman and Child at Breakfast (Mulher e Criança
no Café da Manhã), Domestic Rituals.
Man Fastening
Pearls (Homem fechando um Colar de Pérolas). Domestic Rituals.
Real Life Dramas
LEITURAS E
VIDEOS RECOMENDADOS
- Site de Mary Frey
- The Story in the Photograph:
Exploring the Work of Mary Frey (Exercício proposto pelo Hudson River Museum)
- Treasures and Errors (vídeo de Alec Soth de 2022 sobre a
exposição Pleasures and Terrors of Domestic Rituals)
- Interview – Mary Frey (Wul Magazine)
- FROM DOMESTIC RITUALS SERIES – Two black-and-white photographs of men and women preparing food and drink at home by Mary Frey (Bomb Magazine)
- Domestic Fictions: a life less ordinary – Featuring Jo Ann Callis, Bruce Charlesworth, and Mary Frey (Rose Gallery, 2023)
- Mary Frey (Art is Hell, 2025)