“I
wasn't captivated by the romance of Paris or London. I love visiting, but I'd
rather be in L.A.” – Ed Ruscha
Considerado uma das figuras mais influentes da arte
contemporânea, Ed Ruscha (n.1937) é um artista associado à Pop Art e à Arte
Conceitual. Conhecido por seu uso criativo de tipografia, palavras e frases
como elementos visuais, sua produção abrange pintura, desenho, fotografia,
gravura e livros de artista. Seus livros, como Twentysix Gasoline Stations
(1963), exerceram forte influência sobre a fotografia contemporânea, enquanto
suas pinturas ajudaram a ampliar as possibilidades da relação entre texto e
arte visual. As icônicas telas à óleo que Ruscha pintou no início dos anos 1960
atingem valores astronômicos: o recorde
foi com Standard Station, Ten-Cent Western Being Torn in Half, vendida por US$
68,3 milhões.
Ruscha nasceu em Omaha, Nebraska, nos EUA e mudou-se para
Los Angeles para estudar no Chouinard Art Institute (atual California Institute
of the Arts). Quando decidiu sair de sua região natal, achou que trabalharia
como pintor de letreiros, mas acabou indo para o design gráfico. Em 1962,
participou da exposição New Painting of Common Objects, considerada um dos
marcos da Pop Art americana. Enquanto artistas como Andy Warhol e Roy
Lichtenstein voltavam sua atenção para produtos de consumo, histórias em
quadrinhos e publicidade, Ruscha encontrou inspiração na paisagem comum do
oeste americano: postos de gasolina, estacionamentos, fachadas, piscinas,
letreiros e ruas de Los Angeles.
Em 1963 publicou Twentysix Gasoline Stations, um pequeno
livro contendo exatamente vinte e seis fotografias de postos de gasolina
encontrados ao longo da Rota 66 entre Los Angeles e Oklahoma City. As imagens
são simples, diretas e quase impessoais. Cada fotografia traz apenas o nome do
posto e sua localização. Hoje considerado um dos livros de artista mais
importantes do século XX, o trabalho modificou a maneira de pensar o fotolivro.
Ao invés da fotografia como uma imagem única destinada à parede de um museu,
Ruscha mostrou que um fotolivro poderia constituir uma obra de arte.
Nos anos
seguintes, Ruscha Various Small Fires
and Milk, Some Los Angeles Apartments, Every Building on the Sunset Strip,
Thirtyfour Parking Lots in Los Angeles, Nine Swimming Pools and a Broken Glass
e Real Estate Opportunities. Todos seguem uma lógica semelhante:
escolher um tema extremamente específico, fotografá-lo de maneira objetiva e
construir significado por meio da repetição. Em Every Building on the Sunset
Strip (1966), por exemplo, registrou toda a extensão de um dos mais famosos
boulevards de Los Angeles em uma longa sequência fotográfica apresentada em
formato sanfonado, uma solução gráfica que se tornaria um dos livros de artista
mais celebrados do século XX.
Embora a fotografia ocupasse um papel central em muitos
desses projetos, Ruscha nunca demonstrou interesse em produzir imagens
tecnicamente virtuosas ou fotografias destinadas a serem apreciadas
isoladamente. Para ele, a câmera funcionava como uma ferramenta de registro e
investigação. O interesse estava na ideia, na sequência e na relação entre as
imagens. Essa maneira de pensar exerceu grande influência sobre o
desenvolvimento do fotolivro, da fotografia conceitual e de autores como
Stephen Shore, Lewis Baltz, Robert Adams, Joe Deal e John Gossage, além de
dialogar com a fotografia tipológica desenvolvida por Bernd e Hilla Becher.
Ao longo da carreira, Ruscha recebeu algumas das mais importantes homenagens do mundo da arte. Em 2005, representou os Estados Unidos na 51ª Bienal de Veneza, um dos maiores reconhecimentos que um artista americano pode alcançar. Sua participação confirmou aquilo que museus e críticos já reconheciam havia décadas: que sua obra havia ampliado as possibilidades da pintura, do livro de artista e da fotografia, tornando-se uma referência para diferentes gerações de artistas.
Pôster da exposição
“New Painting of Common Objects” organizada por Walter Hopps, realizada no Pasadena
Art Museum em 1962. Quando questionado sobre a abundância de texto em seu
trabalho, Ruscha respondeu que “eu simplesmente pinto palavras como alguém
pinta flores”.
Gasoline Statons,
1962.
Twentysix Gasoline
Stations, 1963. Foi uma publicação modesta composta por fotografias
preto-e-branco de postos de gasolina, tiradas no trajeto entre a casa de Ruscha
em Los Angeles e a de seus pais em Oklahoma City. Foi seu primeiro e é um dos
livros de artista mais famosos e icônicos. A primeira tiragem de Twentysix foi
de apenas 400 cópias numeradas, que ele vendou por apenas três dólares. Depois,
fez tiragens maiores que não eram assinadas porque sua intenção não era criar
um livro de tiragem limitada, mas algo produzido em massa.
Em seu influente ensaio “Marks of Indifference: Aspects of Photography in, or as, conceptual Art”, de 1995, Jeff Wall descreveu Twentysix Gasoline Stations como um gesto radical de redução conceitual. Segunto ele, a reação inicial do meio artístico poderia ser resumida da seguinte forma: “só um idiota fotografaria apenas postos de gasolina e a existência de um livro composto exclusivamente por elas é uma espécie de prova de que essa pessoa existe”. A provocação de Wall destacava o quanto o projeto de Ruscha contrariava as expectativas tradicionais sobre o que uma fotografia e um livro de fotografias deveriam ser. Para ele, Ruscha assumia deliberadamente o papel de um “não artista” ao produzir imagens desprovidas da sofisticação formal normalmente associada à fotografia de arte. As imagens são simples, banais e desinteressantes, mostrando que Ruscha rompia com os critérios convencionais da fotografia artística e fazia do próprio ato de fotografar uma investigação conceitual.
Some Los Angeles
Apartaments, 1965. Esse livro está disponível na biblioteca do IMS-SP
Various Small Fires and Milk, 1964
Nine Swimming Pools (1968-1997)
Every Building on Sunset Strip, 1966. Quando
Ruscha se mudou para Los Angeles, conheceu a Sunset Boulevard, uma avenida que
percorre mais de 40 quilômetros. Dentro dela há um trecho chamado Sunset Strip,
que o inspirou visualmente na década de 1960. Para tirar fotos do Strip, Ruscha
carregou uma Nikon F2 motorizada com filme preto-e-branco de 35mm e a montou em
um tripé na traseira de uma caminhonete. Tirou fotografias em sequência
enquanto seguia pela avenida. Retratou ao mesmo tempo a expansão urbana de Los
Angeles e a cultura automobilística. Ele basicamente fez uma série de registro
do Google Maps décadas à frente de nosso tempo!
Fez então mais um livro barato, em formato acordeom, com duas tiras de imagens: um lado da avenida fica no topo e o outro no fundo de cabeça para baixo, como se o centro entre os dois fosse a avenida e a pessoa pudesse olhar para cada um dos lados. Ruscha não se interessava em produzir livros caros ou elaborados porque afirmava que a natureza de suas fotografias, nesse caso, era informativa e descartava a hipótese de que seu trabalho possuísse elementos subjetivos ou artísticos.
Standard Station,
1966. A partir de seu influente livro de artista Twentysix Gasoline Stations,
Ruscha transformou o posto de gasolina comum em uma representação icônica da
paisagem americana. Essa obra, juntamente com suas diferentes versões,
evidencia a abordagem experimental de Ruscha na gravura e sua exploração do
motivo do posto de gasolina, consolidando-o como um símbolo do imaginário
visual da América moderna.
Honk, 1962. A linguagem é um tema constante em sua produção, cuja forma e significado ele vem explorando continuamente ao longo de mais de seis décadas. Ruscha iniciou sua carreira estudando arte comercial e trabalhando com design gráfico e diagramação e incorporou o repertório tipográfico à sua produção artística. Logotipos, letreiros, palavras e expressões deixaram de ser apenas elementos auxiliares para ocupar o centro de suas pinturas, desenhos e livros de artista. Sua influência pode ser percebida em várias manifestações da cultura visual contemporânea.
Annie, 1962. É uma
obra fundamental de Ruscha, que evidencia sua evolução em direção ao uso
característico de palavras e referências à cultura popular. Nessa pintura de
quase 1,80 metro de altura, Ruscha utiliza o nome "Annie", da
história em quadrinhos Little Orphan Annie, combinado a um forte contraste
cromático que divide a tela em duas metades distintas. Na parte superior, a
palavra aparece em vermelho intenso sobre um fundo amarelo; na inferior, o
espectador é envolvido por um profundo campo azul. A obra marca um momento
decisivo na carreira de Ruscha, refletindo seu interesse pelo poder das
palavras e por sua representação visual. Ao mesmo tempo, insere sua produção no
contexto mais amplo da Pop Art, distinguindo sua abordagem da de artistas como
Andy Warhol e Roy Lichtenstein: em vez de enfatizar a personagem Annie, Ruscha
concentra sua atenção nos aspectos formais da tipografia e da própria palavra
como imagem.
Annie, Poured from Maple Syrup, 1966. É uma pintura em trompe-l'œil na qual a palavra "Annie" parece ter sido escrita com um espesso xarope de bordo dourado sobre um vibrante fundo amarelo. Em sua obra, Ruscha frequentemente explora a relação entre linguagem, cultura popular e materiais orgânicos inesperados. Embora Annie, Poured from Maple Syrup utilize uma pintura ilusionista para representar um alimento comum do café da manhã, o artista também empregou alimentos e produtos domésticos como pigmentos em gravuras e trabalhos sobre papel. A partir do final da década de 1960, passou a produzir obras utilizando materiais pouco convencionais, como chocolate, espinafre, ketchup, suco de mirtilo, pimenta-caiena e mostarda.
Actual Size, 1962.
Um exemplo do envolvimento inicial de Ruscha com a Pop Art, ao explorar a
produção em massa e a cultura do consumo. A obra, que tem 1,83m por 1,70m,
apresenta o nome da marca Spam em grandes dimensões junto com uma lata em
tamanho real e simboliza o consumismo da época e os mecanismos publicitários
que ampliavam o apelo dos produtos do cotidiano.
LEITURAS
E VÍDEOS RECOMENDADOS
- Ed Ruscha’s 10 Most Famous Artworks (My Art Broker, 2026)
- Ed Ruscha – The Tension of Words and
Imagens | Artist Interview | TateShots (Tate, video de 2013)
- Ed Ruscha and the Art of the
Everyday (Tate);
- Ed Ruscha Photography Books (Tate, video de 2013)
- Ed Ruscha and Photography (Artforum, sobre uma exposição no Instituto de Arte de Chicago de 2008)
- Ed Ruscha – Every Building on the Sunset Strip,
1966 (Mark Hurvitz,
video de 2024)
- Every Building on the Sunset Strip – An
Interview with Ed Ruscha (V&A Dundee, video de 2024)
- Obras de Ed Ruscha no MoMA