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Friday, May 22, 2026

MARY ELLEN MARK

Mary Ellen Mark (1940–2015)

“Sinto afinidade por pessoas que não tiveram as melhores oportunidades dentro da sociedade. Mais do que qualquer coisa, o que quero fazer é reconhecer sua existência.”

Mary Ellen Mark (1940-2015) foi conhecida por unir documentação social e retrato editorial em uma obra profundamente humanista. Dedicou a vida a fotografar pessoas e contar suas histórias em projetos de longo prazo, chegando a acompanhar um mesmo assunto por décadas. Ao longo de mais de cinquenta anos, viajou pelo mundo registrando adolescentes fugitivos, prostitutas, artistas de circo, pacientes psiquiátricos e outras pessoas à margem da sociedade, enquanto se dedicava com a mesma intensidade ao trabalho editorial e comercial.

Possuía uma rara capacidade de se aproximar das pessoas e acreditava que a câmera era um passaporte para entrar em suas vidas. Seus retratos eram definidos menos pela busca do instante decisivo e mais pela convivência, permanência e construção geral de confiança. Gostava de circos, crianças, adolescentes e animais – nos animais via um forte antropomorfismo; nas crianças e adolescentes enxergava indivíduos completos que não deveriam ser tratados com condescendência.

Após estudar pintura e história da arte, Mary Ellen Mark fez um mestrado em fotojornalismo na universidade de Pensilvânia. Em 1965, recebeu uma bolsa Fulbright que lhe permitiu passar um ano fotografando na Turquia. A experiência consolidou seu interesse pela fotografia como forma de imersão. Pouco depois, passou a viajar extensivamente para países como México e Índia, ao mesmo tempo em que iniciava uma carreira no mercado editorial norte-americano.

Mark esteve na Índia, que se tornaria um dos centros mais importantes de sua obra, pela primeira vez em 1968, trabalhando para a revista Life. Durante essa viagem começou a fotografar temas que revisitaria ao longo de décadas, como os circos itinerantes do interior e as prostitutas de Falkland Road, em Mumbai. Em viagens posteriores, também documentou o trabalho de Madre Teresa e as Missionárias da Caridade. Muitas dessas viagens foram financiadas pela própria fotógrafa ou por bolsas que recebeu, com o objetivo de construir um corpo de trabalho independente, sem depender exclusivamente de pautas editoriais.

Durante os anos 1970 e 1980 colaborou com revistas como a Life, Look, Rolling Stone e Vanity Fair, produzindo reportagens, retratos e ensaios fotográficos. Paralelamente, trabalhou em mais de cem sets de filmagens, fotografando bastidores de produções como Gandhi, The Blues Brothers e Apocalypse Now. Seu trabalho ia além do registro promocional: Mark tinha uma rara capacidade de enxergar a atmosfera humana, os relacionamentos e os ânimos dentro dessas produções. Ao longo da carreira, trabalhou com cineastas como Federico Fellini, Francis Ford Coppola, François Truffaut e Tim Burton. Durante as filmagens de Um Estranho no Ninho, conheceu o diretor de um hospital psiquiátrico, contato que a permitiu produzir posteriormente Ward 81, um de seus grandes trabalhos documentais.

No final da década de 1970 e início dos 1980, aprofundou seus trabalhos na Índia e publicou Falkland Read e Indian Circus. Voltava também sua atenção para seu país, os Estados Unidos, produzindo Streetwise, talvez seu trabalho mais conhecido. O projeto documentava adolescentes vivendo nas ruas de Seattle, muitos envolvidos com drogas, prostituição e violência. Entre eles estava Erin Blackwell, conhecida como Tiny, que Mark continuaria fotografando por décadas. Essa permanência é fundamental para entender a fotografia de Mary Ellen Mark: seus projetos raramente terminavam quando a reportagem era publicada ou o livro era lançado.

Em 1982, casou-se com o cineasta Martin Bell, que dirigiu o documentário Streetwise, indicado ao Oscar. Nos anos seguintes, Mark continuou alternando grandes ensaios sociais com projetos observacionais sobre a cultura americana. Fotografou festivais de gêmeos, bailes de formatura, famílias não convencionais, idosos, artistas excêntricos e pequenas comunidades espalhadas pelo país. Mesmo em trabalhos aparentemente menos impactantes, seguia com seu interesse por identidade, pertencimento e dignidade humana.

A partir de 1990, dedicou-se a orientar fotógrafos e ministrar workshops, tornando-se referência para gerações mais jovens interessadas em fotografia documental. Um de seus workshops mais conhecidos acontecia em Oaxaca, no México, onde incentivava os alunos a desenvolver relações profundas e honestas com seus fotografados.

Apesar do enorme reconhecimento internacional, Mark teve dificuldades para se adaptar às mudanças causadas pela internet no mercado editorial. Nunca aderiu à fotografia digital e permaneceu uma grande defensora da fotografia analógica em preto-e-branco, continuando a usar Kodak Tri-X e fazer suas ampliações em gelatina de prata. Acreditava que a fotografia deveria ser construída na câmera e não no computador, evitando cortes excessivos e manipulações pesadas em pós-produção. Para ela, cada imagem precisava funcionar sozinha, independentemente da narrativa maior em que estivesse inserida. Admirava ensaios clássicos como Country Doctor, de W. Eugene Smith e acreditava que um fotógrafo deveria perseguir imagens capazes de permanecer fortes mesmo fora do contexto da reportagem.

Mary Ellen Mark morreu em 2015, aos 75 anos, em Nova York. Continuou fotografando, publicando livros e revisitando os personagens e histórias dedicadas décadas antes até seus últimos anos de vida. Sua obra permanece como uma das mais importantes da fotografia documental, marcada pela capacidade de aproximar o espectador de pessoas e mundos frequentemente ignorados pela fotografia tradicional

Discover the Photo That Defined Mary Ellen Mark's Career

A Bela Emine Posando, Trabzon, Turquia, 1965. Mark afirma que essa foi a fotografia que deu início à sua carreira e determinou o tom que ela queria dar à sua fotografia. Durante a estada na Turquia, passava os dias andando pelas ruas em busca de coisas interessantes para fotografar. Encontrou Emine, de quem fez um retrato e foi convidada para entrar em sua casa e tomar chá com sua mãe, onde aproveitou para tirar mais fotos. Retornou à Turquia alguns anos depois e localizou Emine através de sua filha. Mark conta que o retrato de Emine lhe revelou o caminho que sua fotografia deveria seguir.

A black-and-white photograph of a medium-skinned girl in a frilly acrobat costume standing next to two children in identical, full-body peacock costumes. One peacock-costumed child holds a bundle of long peacock feathers, and they all stand on sand with a row of tents behind them.

Criança Acrobata com Duas Crianças Fantasiadas de Avestruz, Great Royal Circus, Himmatnagar, Índia, 1989. Mary Ellen Mark esteve na Índia pela primeira vez para fazer uma reportagem sobre a cultura do lugar para a revista Life e uma para a Paris Match sobre jovens do ocidente que viajavam pelo país. Nessa viagem teve contato pela primeira vez com os circos do interior e com as prostitutas de Falkland Road, assuntos que revisitou por anos sempre que retornava.

Hippopotamus and performer, Great Rayman Circus. Chennai, India, 1989.

Hipopótamo e Treinadora, Great Rayman Circus. Chennai, India, 1989. 

Ram Prakash com seu elfante Shyama, Great Golden Circus, Ahmedabad, Índia, 1990. 

A black-and-white photograph of a medium-dark skinned toddler seated in a stroller being pushed by a clothed chimpanzee wearing white pants and a button-up shirt. The child has short, dark, curly hair and wears a light colored sundress, and appears apprehensive.

Criança em um Carrinho com um Chimpanzé, India, 1974 

Lot - Mary Ellen Mark (1941-2015) "Portrait of Mother Teresa"

Madre Teresa na Home for the Dying, Calcutá, India, 1980. Mark foi enviada pela revista Life novamente para a Índia, dessa vez para fotografar as Missões de Caridade de Madre Tereza. À parte desse trabalho, suas viagens para lá eram fundadas pela própria fotógrafa ou através de alguma bolsa, o objetivo era construir seu portfólio pessoal.

Mary Ellen Mark | Mother Teresa, Hands in Prayer; and Mother Teresa's Feet,  Calcutta 2 | MutualArt

Madre Teresa, Calcutá, 1981.

In pictures: Vintage photos from Mumbai's notorious Falkland Road | CNN

Falkland Road – Prostitutas de Bombaim. Em sua primeira viagem à Índia em 1968, Mary Ellen Mark visitou o notório distrito da luz vermelha da cidade, onde sempre era recebida com hostilidade tanto pelas trabalhadoras quanto por seus clientes. Retornou várias vezes, fez algumas amizades e, dez anos depois, conseguiu finalmente tirar as fotos.

Mary Ellen Mark Dies at 75 - The New York TimesMary Ellen Mark: Falkland Road. Prostitutes of Bombay - Exibart Street

Rat, 16, e Mike, 17, Seattle, 1983

A black-and-white photograph of two light-skinned girls sitting outside against a wall. The girl on the left stares out of the frame and wears a t-shirt with 'alpha' on it. The girl to the right has her legs folded to her chest, head and arm on her knees, and holds a small flower bouquet.

Adolescentes Fugitivas na Pike Street, Seattle, Washington, 1983

Mary Ellen Mark: Tiny: Streetwise Revisited | MONOVISIONS - Black & White  Photography Magazine

Tiny, Seattle WA, 1983. Mary Ellen Mark conheceu Erin Blackwell (Tiny) nas ruas de Seattle onde fez uma reportagem sobre adolescentes em situação de rua da cidade. Acompanhou a vida de Blackwell por muitos anos, registrando sua transição de uma viciada em drogas que se prostituía nas ruas até trinta anos depois, quando ela era mãe de dez crianças.

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Tiny, Chapéu Preto e Véu, Streetwise, Seattle, 1983

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Tiny, Seattle, Washington, 1983

Tiny: Streetwise Revisited, photographs by Mary Ellen Mark | Aperture

Tiny grávida de Daylon, 1985

Mary Ellen Mark | Tiny and J'Lisa on the couch (2014) | Art & Prints | Artsy

Tiny e J’Lisa no sofá, 2014

J’Lisa Olha Através da Persiana, Streetwise Revisited, 2014. Por trinta e dois anos, Mark documentou a transição de Erin Blackwell (Tiny) de adolescente em situação de rua a prostituta, de viciada em drogas a mãe de dez filhos. Nessa imagem, a filhinha de Blackwell olha pela janela.

Federico Fellini no Set of Satyricon, Roma, Itália, 1969

The cast of Miloš Forman's One Flew Over the Cuckoo's Nest on location at Oregon State Hospital. Salem, Oregon, 1975.

O cast de Um Estranho no Ninho de Miloš Forman no Hospital Psiquiátrico Estadual de Salem, no Oregon, 1975. Foi durante esse trabalho que Mark conheceu o diretor de um hospital psiquiátrico e ele a convidou para visitar o local. Ela ficou muito impactada pela ala feminina de segurança máxima, o Ward 81 e, após muito tempo insistindo, o dr. Dean Brooks lhe concedeu acesso para tirar fotos. Morou por vários meses na instituição junto com as detentas. Pouco se dava atenção para os cuidados aos doentes mentais e esse trabalho de Mark ajudou a colocar uma luz sobre o assunto.

Tommie peeking out of her room, Ward 81, Oregon State Hospital. Salem, Oregon, 1976.

Tommie olhando fora de seu quarto, Ward 81, Hospital Psiquiátrico Estadual. Salem, Oregon, 1976.

Laurie na banheira, Ward 81. Hospital Psiquiátrico Estadual, Salem, Oregon, 1976

PHOTOS: The Essence Of Mary Ellen Mark, The Invisible Made Visible | WUNC  News

Sue Gallo e Faye Gallo no Festival de Gêmeos de Twinsburg, Ohio, 1998 

Tashara e Tanesha Reese. Festival de Gêmeos de Twinsburg, Ohio, 1998. Twinsburg tem esse nome porque foi fundada pelos irmãos gêmeos Moses e Aaron Wilcox no século XIX. É ali que acontece anualmente o festival Twins Days.

Mary Ellen Mark | Jordan and Joseph Basinger, 3 years old, Joseph olde…  (2002) | For Sale | Artsy

Jordan e Joseph Basinger, 3 anos, Festival de Gêmeos de Twinsburg, Ohio, 1998

Mary Ellen Mark | Heather and Kelsey Dietrick, Twinsburg, Ohio (2002) |  MutualArt

Heather e Kelsey Dietrick, Twinsburg, Ohio, 2002

Amanda e sua prima Amy, Valdese, North Carolina, USA, 1990. 

Mary Ellen Mark (1940-2015) in The New Yorker | Mary ellen mark, Lone ranger,  Rare

Clayton Moore, o antigo Lone Ranger, Los Angeles, 1992. Moore interpretou o Cavalheiro Solitário na TV entre 1949 e 1957 e continuou usando o traje por décadas após o final do programa. Mary Ellen Mark teve a ideia de fazer uma matéria sobre cowboys de filmes antigos para a revista Premiere. 

Lucas Nathan e Grace Bush-Vineberg, Palisades Charter High School Prom. Los Angeles, Calif´rrnia.

A black and white photograph of a teenage couple in formal clothing. A teen girl with dark skin and straight, dark hair stands slightly in front of a teen boy with dark skin and shortly cropped dark hair. She wears a long, light colored lace dress with a slit on the leg, and a jeweled chain wrapped around her thigh. He wears a white suit with a dark tie.

Ursula Phillips e Gregory Whitlock Jr. Malcolm J. Shabazz High School, Newark, New Jersey, 2006

The Book of Everything, 2020. Publicado pela Steidl em três volumes, contém 500 fotografias de Mary Ellen Mark selecionadas e organizadas por Martin Bell. É a coleção mais compreensiva da sua obra. 

 

LEITURAS E VÍDEOS RECOMENDADOS:

Monday, January 5, 2026

DREAM CITY | W. EUGENE SMITH

 

W. Eugene Smith chegou em Pittsburgh em 1955, para o que seria seu primeiro trabalho pela Magnum. O historiador Stefan Lorant tinha sido contratado por líderes comerciais e cívicos locais para fazer um livro comemorativo dos 200 anos da cidade e precisava de um profissional para fazer as fotos.

Pelo acordo, Smith deveria ter entregado 100 fotografias a Lorant em três semanas, porém passou esse período lendo sobre Pittsburgh e andando por suas ruas sem ter nada para apresentar ao final. Os dois se desentenderam – algo que era comum na vida profissional de Smith e que tinha sido motivo de vários rompimentos anteriores. Smith entregou, então, as fotos devidas assim que pôde e encerrou o acordo que tinha com Lorant, mas permaneceu na cidade. Obteve duas bolsas do Guggenheim Fellowship e se dedicou a trabalhar nesse projeto da forma como o tinha vislumbrado. Passou um ano por lá, voltando duas vezes e, com isso, produziu mais de 13 mil negativos.

A partir de 1956, Smith e a Magnum começaram a procurar potenciais publicadoras e muitas revistas estavam interessadas. Mais uma vez, Smith queria ter o controle editorial da história e rejeitou essas ofertas. Cedeu somente quando não teve escolha por estar com muitas dívidas e a matéria foi, então, publicada no anuário da Popular Photography de 1958. Mesmo a revista tendo aceitado que Smith determinaria como as coisas seriam, ele ficou devastado quando viu essa publicação, por considerar que o resultado ficou diferente demais do que pretendia.

Publicado em 2001 pela University of Chicago Press, Dream Street foi uma tentativa do editor Sam Stephenson de reunir o melhor que W. E. Smith produziu em Pittsburgh. As fotografias mostram uma cidade vibrante e próspera, com a abordagem humanista que sempre marcou sua obra. Ainda assim, a escolha consciente de tom e contraste faz com que muitas imagens pareçam noturnas, mesmo quando feitas à luz do dia. Esse visual confere às fotografias uma densidade emocional constante.

Embora tenha deixado um legado imensurável com sua obra, W. Eugene Smith era uma pessoa de personalidade e trato difíceis e com uma trajetória nada linear de carreira. Teve conflitos com as pessoas envolvidas na maioria dos trabalhos que fez, sofreu consequências negativas por sua investigação jornalística e viveu à beira da falência. Longe de ser um livro essencial da sua obra, Dream Street é uma boa referência do que se passava em sua vida na época que foi feito – é um livro que fica mais interessante ao saber seu contexto do que ao simplesmente olhar a sequência de imagens. 

Leia mais sobre o fotógrafo nesse post de janeiro de 2025.


Friday, September 5, 2025

UM MARCO NO ENSAIO FOTOJORNALÍSTICO | COUNTRY DOCTOR DE W. EUGENE SMITH

“Ele estava sempre presente. Estava sempre nas sombras. Eu fazia a apresentação e depois seguia com meu trabalho como se ele fosse apenas uma maçaneta.” - Dr. Ernest Ceriani (falando de  W. Eugene Smith)

Quando a revista Life publicou Country Doctor em 1948, a intenção parecia clara: responder a uma preocupação crescente da medicina norte-americana. A American Medical Association (AMA) havia solicitado à revista que abordasse o problema da falta de clínicos gerais em áreas rurais — cada vez mais médicos preferiam se especializar e estabelecer carreira nas grandes cidades, deixando pequenas comunidades sem assistência. Ao mesmo tempo, a discussão sobre sistemas de saúde pública ganhava força, com os Estados Unidos tentando seguir a tendência europeia de caminhar em direção a uma cobertura universal. Era, portanto, um tema de política médica e social, mais do que um simples retrato de um profissional.

O escolhido para protagonizar essa reportagem foi o Dr. Ernest Ceriani, um clínico geral de 32 anos que atendia sozinho uma comunidade de duas mil pessoas em Kremmling, uma cidade isolada no interior do Colorado. Jovem, dinâmico e fotogênico o suficiente para atrair os leitores da Life, Ceriani foi indicado pela Sociedade Médica do Colorado como representante exemplar de uma categoria que se tornava cada vez mais rara.

A revista enviou para lá W. Eugene Smith, já conhecido por seu perfeccionismo e pela habilidade de transformar a vida comum em narrativa épica. Ele permaneceu 23 dias em Kremmling, acompanhando cada passo do médico. Sua estratégia era clara: colar-se a Ceriani até que sua presença deixasse de ser notada, ganhando liberdade para registrar tanto os momentos de heroísmo quanto os de exaustão e fragilidade. O resultado foi uma cobertura que, de início, incomodou tanto o médico quanto seus pacientes, mas que aos poucos se transformou em convivência quase invisível.

Smith entregou 200 fotografias à Life. A revista publicou apenas 27. Ainda assim, foi o suficiente para transformar o Dr. Ceriani em celebridade instantânea: para milhões de leitores — a Life tinha então mais de vinte milhões de assinantes —, ele passou a encarnar os melhores aspectos da dedicação humana. A narrativa visual de Smith elevava a figura de um médico de cidade pequena a um patamar quase mítico, em que cada gesto era carregado de dignidade.

Mas o efeito da reportagem foi paradoxal. Se por um lado Country Doctor entrou para a história como um marco no ensaio fotojornalístico — com sua narrativa construída de forma quase literária, costurada pela visão rigorosa e empática de Smith —, por outro falhou em cumprir o objetivo original da AMA. O público ficou tão fascinado pela figura do Dr. Ceriani que ignorou a questão estrutural: a crise na medicina rural norte-americana. A história que deveria funcionar como alerta social acabou funcionando como elegia a uma profissão em vias de desaparecer.

É nesse ponto que reside a força e a ironia de Country Doctor. Ele permanece como um dos ensaios mais estudados de todos os tempos não apenas pela maestria formal, mas também porque cristalizou em imagens a beleza e a tragédia de algo que já estava se tornando passado. O olhar de Smith, capaz de transformar o comum em heroico, deu a Ceriani a imortalidade fotográfica — e ao mesmo tempo selou, quase sem querer, o registro de um modo de vida em extinção.

LINKS INTERESSANTES:


Tuesday, January 28, 2025

W. EUGENE SMITH

 

"Na construção de uma história, começo com meus proóprios preconceitos, marco-os como preconceitos e começo a buscar novos pensamentos, as contradições aos meus preconceitos. O que quero dizer é que você não pode ser objetio até tentar ser justo".
(W. Eugene Smith)

W. eugene Smith (1918-1978) é uma figura emblemática na história da fotografia documental. Nascido em Wichita, Kansas, começou sua carreira fotografando para jornais locais e rapidamente se destacou por sua abordagem comproetida e sensível.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Smith trabalhou como correspondente fotográfico para a revista Life, produzindo imagens impactantes do fronto. Seu compromisso em capturar a humanidade no coas da guerra culminou em fotografias icônicas, bem como lhe rendeu ferimentos graves enquanto documentava o conflito no Pacífico. 
Após a guerra, Smith redefiniu o fotojornalismo com seus ensaios fotográficos para a revista Life. Entre eles, destacam´se "Country Doctor" (1948), que retrata o cotidiano de um médico no interior do Colorado, e "Nurse Midwife" (1951) sobre a atuação de uma enfermeira parteira nos EUA. Sua obra-prima "Minamata" (1971-1973) denunciou os efeitos devastadores do mercúrio despejado em águas japonesas, revelando a força da fotografia como ferramenta de justiça social.
Smith era perfeccionista, tanto na captura quanto na edição de suas imagens. Suas narrativas visuais, frequentemente acompanhadas por textos detalhados, elevaram o status da fotografia documental a uma arte e um veículos de conscientização social. 
Seu legado é uma mistura de empatia e determinação, demonstrando que imagens têm o poder de contar histórias que ecoam muito além do momento capturado. 

Veja o board do Pinterest com fotografias de W. Eugene Smith.

Vídeos interessantes:

  • O fotógrafo da Magnum mais influente de todos os tempos // W. Eugene Smith

  • W. Eugene Smith: Uma vida em imagens (entrevista com Aileen Mioko Smith - 2023)
  • Palestra de abertura de "W. Eugene Smith: Uma vida em imagens" com Rebecca Senf e Q&A com Kevin Smith:


Links interessantes:

Monday, January 13, 2025

A lente histórica de Evandro Teixeira

"Fotografar é contar histórias sem palavras"

Nascido em 1935 na pequena cidade de Irajuba, na Bahia, Evandro Teixeira iniciou sua trajetória profissional nos anos 1950. Foi durante o período da ditadura militar, no entando, que seu trabalho ganhou maior projeção. Como fotojornalista do jornal O Globo, capturou cenas emblemáticas da repressão, das manifestações populares e do impacto desse regime na vida cotidiana. 
Entre suas imagens mais mrcantes estão aquelas que retratam os momentos de tensa resistência durante a ditadura. Seu olhar não se limitava às manchetes: ele buscava as histórias humanas por trás dos fatos, mostrando o comércio, ruas e pessoas e sua realidade.

Outro trabalho de grande relevância de Evandro Teixeira foi o registro do golpe militar no Chile, em 1973. Ele estava em Santiago quando o presidente Salvador Allende foi deposto pelo regime de Augusto Pinochet. Suas fotos mostram cenas de manifestações, repressão e o impacto imediato na vida dos chilenos e esse trabalho reforça sua habilidade de documentar eventos históricos com um olhar sensível e comprometido com a verdade.

Também esteve presente na Missa do Vaqueiro, em Pernambuco, um evento anual que celebra a memória dos vaqueiros nordestinos e suas tradições. suas fotografias desse evento mostram não apenas a riqueza cultural do nordeste, , mas a conexão entre as pessoas e sua terra. Com um olhar atento, capturou a beleza das celebrações e a força simbólica desse momento de união e identidade cultural.

Em 1997, Evandro lançou o livro Canudos 100 Anos, um dos maiores marcos de sua carreira. O projeto o levou ao sertão baiano para documentar a região onde ocorreu a Guerra de Canudos, revelando a essência das pessoas e do ambiente local. suas imagens transmitem a resiliência e a memória de um povo que carrega a história nos olhos.

Evandro Teixeira segue como inspiração para os que, como eu, acreditam na fotografia como uma forma de contar histórias essenciais. Seu trabalho é um convite para refletirmos sobre o presente e preservarmos a memória coletiva. 

Vídeos interessantes:

  • Evandro Teixeira Chile 1973 (fotolivro):

  • Nas trilhas da natureza | Caçadores da alma ep.1 - aos 13:55, Evandro Teixeira comenta sobre sua experiência na Missa do Vaqueiro, em Serrita, PE:

  • EPISÓDIO 6 - Ensaios fotográficos | Caçadores da Alma. Aos 6:50 Evandro Teixeira conta sua experiência no Chile em 1973. Fala da morte e do funeral de Pablo Neruda, afirmando que foi o momento mais emocionante da sua carreira. Eu tenho o livro Evandro Teixeira Chile 1973, que é uma produção lindíssima do IMS, e considero esse trecho essencial como complemento a ele.
  • Canudos 100 anos (1997):
  • Evandro Teixeira - Fotojornalismo:
  • Apresentação da exposição "Evandro Teixeira. Chile 1973" no IMS paulista:
  • EVANDRO TEIXEIRA Fotojornalismo (fotolivro):




Links interessantes: