"Minha
alegria está em tentar descobrir novas maneiras de transformar algo muito
conhecido em algo diferente."
Abelardo Morell (1948) é um artista nascido
em Cuba que vive nos Estados Unidos desde os anos 1960. Ficou conhecido por
criar imagens usando câmaras escuras em diversos lugares do
mundo. Seu trabalho vai além da fotografia entendida apenas como registro: ao
longo da carreira, Morell vem realizando experiências envolvendo lentes, foco,
exposições longas e múltiplas, além de diferentes materiais e superfícies. Movido
pela curiosidade, testa ideias e observa como se comportam na prática. No processo,
produz imagens fascinantes que ajudam a revelar os próprios mecanismos da
fotografia.
Em 1988, Morell dava aulas em um curso introdutório de
fotografia em uma escola de artes em Massachussetts. Em um dia ensolarado,
cobriu as janelas da sala de aula com plástico preto, deixando o ambiente
escuro como uma caverna, e fez um pequeno furo no material. A parede do fundo
ganhou vida como uma tela de cinema: nela, o exterior aparecia em tempo real de
cabeça para baixo, com prédios, árvores, carros e pedestres em movimento.
Morell tinha transformado a sala em uma câmara escura, talvez o dispositivo
mais antigo para formação de imagens. Para seus alunos, foi uma revelação: uma
aula visual sobre o que uma câmera fotográfica faz, com eles literalmente
dentro dela.
Morell já vinha fazendo experiências semelhantes em casa.
Levou meses para dominar a técnica, especialmente para determinar o tamanho ideal
da abertura que permitisse a entrada de luz sem comprometer a nitidez da imagem.
A primeira tentativa aconteceu no quarto do seu filho, onde posicionou uma câmera
de grande formato em um tripé, com uma exposição de mais de oito horas para
registrar a projeção que ocupava o ambiente. A partir daí, iniciou uma série de
fotos em diferentes locais, especialmente quartos de hotel, Camera Obscura, que
se tornou uma das mais conhecidas da sua obra.
Depois dos quartos de hotel, Morell criou câmaras escuras
usando barracas. A ideia surgiu quando quis fotografar paisagens em locais onde
não havia hotéis. Seu primeiro projeto foi realizado no Oeste americano.
Fascinado pelas fotografias do século XIX de Carleton Watkins e Timothy H.
O'Sullivan, decidiu revisitar cenários semelhantes, mas por meio de uma
abordagem completamente diferente.
Para isso, desenvolveu uma barraca-câmera à prova de luz e
instalou em seu teto um prisma com lente que projetava a paisagem ao redor
sobre o chão do interior. Em seguida, fotografava essa projeção com uma câmera
de grande formato. A barraca-câmera lhe deu a liberdade de utilizar sua técnica
em lugares onde antes seria impossível trabalhar. Mais tarde, viajou para o
interior da França para produzir a série Pictures on the Ground, realizada em
locais associados às paisagens pintadas por Claude Monet e Vincent van Gogh.
Ao longo de décadas de experimentação, Morell transformou um
dos princípios mais antigos da fotografia em uma fonte inesgotável de invenção
visual, encontrando novas maneiras de olhar para um mundo que julgávamos
conhecer.
A câmara escura
funciona como um olho gigante. A luz entra por um pequeno furo e projeta, na
parede oposta, uma imagem invertida do mundo exterior. Parece algo mágico, mas
é apenas o comportamento natural da luz. Nosso cérebro está acostumado a
corrigir essa inversão, por isso não percebemos que as imagens atravessam
nossos olhos de cabeça para baixo.
Uma versão
portátil se tornou popular no século XVII: ao invés da câmara, uma caixa com
uma lente acoplada no furo. Há suspeitas de que Vermeer usava uma em seus
desenhos, enquanto cientistas usavam para observar eclipses solares. No século
XIX, começou-se a colocar papéis quimicamente tratados e nascia a fotografia.
My glasses, 1989
My Camera and Me, 1990
Light Bulb, 1991.
Quando era professor-assistente, Morell quis fotografar o processo fotográfico
e, para isso, usou materiais simples. Ele não estava simplesmente fotografando
o mundo, mas nos mostrando constantemente como a fotografia acontece.
Book and camera, in Memory of Fox Talbot, 1999
Light entering the house, 2004
Motion studies of falling Pitchers, 2004
Construction with lasers and Mirrors, 2005
View of Brookline in Brady’s Room, 1992. A
câmara escura gigante é uma aula visual sobre o que uma câmera faz. O furo
feito no plástico que cobre a janela serve apenas para projetar a cena que está
acontecendo do lado de fora, como se fosse um filme invertido. Já se sabia
desse fenômeno muitos e muitos séculos atrás. O que Niépce, Talbot e Daguerre,
entre outros, estavam tentando aperfeiçoar no século XIX, eram formas de fixar
uma imagem em um papel dentro da câmara.
The Empire State Building in Bedroom, 1994
Boston’s Old Customs House in Hotel Room, 1999
Times Square in Hotel Room, 1997
Times Square in Hotel Room, 2010. Com as
câmeras digitais, o tempo de exposição pôde ser reduzido de muitas horas para
poucos minutos.
Santa Maria Della Salute in Palazzo Bedroom,
Venice, Italy, 2006
View of Central Park Looking North – Winter, 2013
View of Lower Manhattan, Sunrise, 2022
Morell é um cientista na forma como aborda sua prática
fotográfica, trabalha no sentido de investigar a própria magia do processo. Ele
usa a fotografia para pensar a fotografia.
A barraca-câmera
de Abelardo Morell é uma estrutura de tecido que bloqueia a luz e cobre um
grande tripé especialmente adaptado. No topo há um prisma com lente que
funciona como um periscópio, projetando no chão uma imagem da paisagem ao
redor. A nitidez dessa projeção pode ser ajustada alterando a altura da
barraca. Ao lado do prisma há uma câmera digital apontada para baixo,
fotografando o chão onde a paisagem foi projetada. O resultado combina os
detalhes reais da superfície — como pedras, grama, terra ou concreto — com a
imagem da paisagem sobreposta a ela. Isso cria fotografias que lembram
pinturas, misturando textura e imagem de uma forma incomum. A câmera é ligada a
um computador do lado de fora da barraca, permitindo que Morell controle o
enquadramento e o foco com precisão. O mais interessante é que, na prática, ele
transforma o próprio chão em uma espécie de tela fotográfica. A paisagem é
projetada sobre uma superfície real e depois fotografada, criando uma fusão
entre o lugar e sua representação — uma imagem que mostra simultaneamente o
mundo e uma fotografia do mundo.
Tent-Camera Image. View of the Golden Gate
Bridge From Battery East, 2012
Tent-Camera Image: View of Monet’s Garden,
Giverny, France, 2023. After Monet foi um projeto que Morel começou nos verões
de 2015 e 2016 em Giverny, Rowen e outras regiões da Normandia onde Claude
Monet pintava seus quadros.
Tent-Camera Image: Yew Tree in Monet’s Garden,
Giverny, France, 2023
Tent-Camera Image: Sunflower Field on Ground
with Broken Tiles, Near Arles, France, 2022. Depois da série na região
onde Monet pintava, Morell fez a mesma coisa em Arles, Saint-Remy e outras locais
do sul da França onde Van Gogh pintou e fez a série “Pictures on the Ground: In
the Terrain of Van Gogh”.
Tent-Camera Image: Six Cypresses, Near Arles,
France, 2022
LEITURAS E VÍDEOS RECOMENDADOS
- Abelardo Morell on Capturing Dreams (National Geographic, 2015)
- Rooms with a View (National Geographic, 2011)
- Abelardo Morell’s stunning camera
obscura images (CBS
News, 2017)
- Tent-Camera Process (The Clark, 2024)
- The History of Camera Obscura and
How It Was Used as a Tool To Create Art in Perfect Perspective (My Modern Met, 2024)
- Abelardo Morell the Cuban Missile (Musée)
- Abelardo Morell in Normandy after Monet (vídeo de 2016)
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