Autorretrato no banheiro, Amsterdam, c. 1960
"Os fotógrafos tendem a não fotografar aquilo que não conseguem ver, o que é justamente a razão pela qual deveriam tentar fazê-lo. Caso contrário, continuaremos para sempre fotografando mais rostos, mais cômodos e mais lugares. A fotografia precisa transcender a descrição. Ela precisa ir além da descrição para trazer percepção sobre o assunto, ou revelar o assunto não como ele parece, mas que sentimento passa.”
Duane Michals (1932-2026) ficou mais conhecido por suas séries fotográficas e pelo uso de textos escritos à mão, que iam muito além de uma simples legenda ou descrição. Em suas fotografias, palavras e imagens se misturavam para contar histórias, explorar dúvidas ou dar forma às indagações que ocupavam sua mente.
No entanto, há um outro lado de sua produção que merece atenção: seus retratos. Conhecido por suas sequências sobre fantasmas, morte e metafísica, Michals também fazia algo incomum diante da câmera, transformando retratos e autorretratos em pequenos exercícios de imaginação. Ao longo da carreira, fotografou artistas, escritores, músicos e atores para revistas, livros, capas de discos e projetos pessoais, produzindo algumas das imagens mais memoráveis de sua geração.
Ele refletia profundamente sobre o que significa fazer um retrato. Em um texto bem-humorado publicado por ocasião do lançamento de seu livro Portraits, em 2017, dividiu a fotografia de retrato em quatro categorias: o retrato tradicional, em que a pessoa simplesmente encara a câmera; o retrato em prosa, que procura revelar algo do personagem por meio de uma pequena narrativa; o retrato anotado, acompanhado de observações escritas; e o retrato imaginário, construído a partir de sua própria imaginação. É fácil reconhecer essas ideias em seu trabalho. Em vez de se contentar com a aparência de seus retratados, Duane frequentemente os colocava em ambientes cuidadosamente escolhidos ou criava pequenas situações que dialogavam com suas personalidades, suas obras e suas contradições.
Seus autorretratos seguem a mesma lógica. Neles, não aparece apenas como fotógrafo, mas como personagem de suas próprias especulações. Envelhecimento, memória, identidade, desejo e mortalidade surgem em imagens que misturam encenação, humor e reflexão. Ao olhar hoje para seus retratos e autorretratos, fica claro que Michals nunca esteve particularmente interessado em mostrar como alguém parecia. O que lhe interessava era sugerir quem aquela pessoa poderia ser, ou quem ela se tornava quando passava pelo filtro de sua imaginação.
David Hockney e seu amigo, 1975
Duane Michals and Robin Williams, c.1980
Johnny Cash, c. 1970
Autorretrato como outra pessoa,1973
Sting, 1982
René Magritte, 1965
Jasper Johns, 1972
Susan Sontag, 1959
LEITURAS E VÍDEOS RECOMENDADOS
- Post sobre Duane Michals (Falando de Fotografia com Gigi, 2025);
- Duane Michals: Beyond the Anotated Portrait (B&H Photo, 2022)
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