Friday, May 22, 2026

MARY ELLEN MARK

Mary Ellen Mark (1940–2015)

“Sinto afinidade por pessoas que não tiveram as melhores oportunidades dentro da sociedade. Mais do que qualquer coisa, o que quero fazer é reconhecer sua existência.”

Mary Ellen Mark (1940-2015) foi conhecida por unir documentação social e retrato editorial em uma obra profundamente humanista. Dedicou a vida a fotografar pessoas e contar suas histórias em projetos de longo prazo, chegando a acompanhar um mesmo assunto por décadas. Ao longo de mais de cinquenta anos, viajou pelo mundo registrando adolescentes fugitivos, prostitutas, artistas de circo, pacientes psiquiátricos e outras pessoas à margem da sociedade, enquanto se dedicava com a mesma intensidade ao trabalho editorial e comercial.

Possuía uma rara capacidade de se aproximar das pessoas e acreditava que a câmera era um passaporte para entrar em suas vidas. Seus retratos eram definidos menos pela busca do instante decisivo e mais pela convivência, permanência e construção geral de confiança. Gostava de circos, crianças, adolescentes e animais – nos animais via um forte antropomorfismo; nas crianças e adolescentes enxergava indivíduos completos que não deveriam ser tratados com condescendência.

Após estudar pintura e história da arte, Mary Ellen Mark fez um mestrado em fotojornalismo na universidade de Pensilvânia. Em 1965, recebeu uma bolsa Fulbright que lhe permitiu passar um ano fotografando na Turquia. A experiência consolidou seu interesse pela fotografia como forma de imersão. Pouco depois, passou a viajar extensivamente para países como México e Índia, ao mesmo tempo em que iniciava uma carreira no mercado editorial norte-americano.

Mark esteve na Índia, que se tornaria um dos centros mais importantes de sua obra, pela primeira vez em 1968, trabalhando para a revista Life. Durante essa viagem começou a fotografar temas que revisitaria ao longo de décadas, como os circos itinerantes do interior e as prostitutas de Falkland Road, em Mumbai. Em viagens posteriores, também documentou o trabalho de Madre Teresa e as Missionárias da Caridade. Muitas dessas viagens foram financiadas pela própria fotógrafa ou por bolsas que recebeu, com o objetivo de construir um corpo de trabalho independente, sem depender exclusivamente de pautas editoriais.

Durante os anos 1970 e 1980 colaborou com revistas como a Life, Look, Rolling Stone e Vanity Fair, produzindo reportagens, retratos e ensaios fotográficos. Paralelamente, trabalhou em mais de cem sets de filmagens, fotografando bastidores de produções como Gandhi, The Blues Brothers e Apocalypse Now. Seu trabalho ia além do registro promocional: Mark tinha uma rara capacidade de enxergar a atmosfera humana, os relacionamentos e os ânimos dentro dessas produções. Ao longo da carreira, trabalhou com cineastas como Federico Fellini, Francis Ford Coppola, François Truffaut e Tim Burton. Durante as filmagens de Um Estranho no Ninho, conheceu o diretor de um hospital psiquiátrico, contato que a permitiu produzir posteriormente Ward 81, um de seus grandes trabalhos documentais.

No final da década de 1970 e início dos 1980, aprofundou seus trabalhos na Índia e publicou Falkland Read e Indian Circus. Voltava também sua atenção para seu país, os Estados Unidos, produzindo Streetwise, talvez seu trabalho mais conhecido. O projeto documentava adolescentes vivendo nas ruas de Seattle, muitos envolvidos com drogas, prostituição e violência. Entre eles estava Erin Blackwell, conhecida como Tiny, que Mark continuaria fotografando por décadas. Essa permanência é fundamental para entender a fotografia de Mary Ellen Mark: seus projetos raramente terminavam quando a reportagem era publicada ou o livro era lançado.

Em 1982, casou-se com o cineasta Martin Bell, que dirigiu o documentário Streetwise, indicado ao Oscar. Nos anos seguintes, Mark continuou alternando grandes ensaios sociais com projetos observacionais sobre a cultura americana. Fotografou festivais de gêmeos, bailes de formatura, famílias não convencionais, idosos, artistas excêntricos e pequenas comunidades espalhadas pelo país. Mesmo em trabalhos aparentemente menos impactantes, seguia com seu interesse por identidade, pertencimento e dignidade humana.

A partir de 1990, dedicou-se a orientar fotógrafos e ministrar workshops, tornando-se referência para gerações mais jovens interessadas em fotografia documental. Um de seus workshops mais conhecidos acontecia em Oaxaca, no México, onde incentivava os alunos a desenvolver relações profundas e honestas com seus fotografados.

Apesar do enorme reconhecimento internacional, Mark teve dificuldades para se adaptar às mudanças causadas pela internet no mercado editorial. Nunca aderiu à fotografia digital e permaneceu uma grande defensora da fotografia analógica em preto-e-branco, continuando a usar Kodak Tri-X e fazer suas ampliações em gelatina de prata. Acreditava que a fotografia deveria ser construída na câmera e não no computador, evitando cortes excessivos e manipulações pesadas em pós-produção. Para ela, cada imagem precisava funcionar sozinha, independentemente da narrativa maior em que estivesse inserida. Admirava ensaios clássicos como Country Doctor, de W. Eugene Smith e acreditava que um fotógrafo deveria perseguir imagens capazes de permanecer fortes mesmo fora do contexto da reportagem.

Mary Ellen Mark morreu em 2015, aos 75 anos, em Nova York. Continuou fotografando, publicando livros e revisitando os personagens e histórias dedicadas décadas antes até seus últimos anos de vida. Sua obra permanece como uma das mais importantes da fotografia documental, marcada pela capacidade de aproximar o espectador de pessoas e mundos frequentemente ignorados pela fotografia tradicional

Discover the Photo That Defined Mary Ellen Mark's Career

A Bela Emine Posando, Trabzon, Turquia, 1965. Mark afirma que essa foi a fotografia que deu início à sua carreira e determinou o tom que ela queria dar à sua fotografia. Durante a estada na Turquia, passava os dias andando pelas ruas em busca de coisas interessantes para fotografar. Encontrou Emine, de quem fez um retrato e foi convidada para entrar em sua casa e tomar chá com sua mãe, onde aproveitou para tirar mais fotos. Retornou à Turquia alguns anos depois e localizou Emine através de sua filha. Mark conta que o retrato de Emine lhe revelou o caminho que sua fotografia deveria seguir.

A black-and-white photograph of a medium-skinned girl in a frilly acrobat costume standing next to two children in identical, full-body peacock costumes. One peacock-costumed child holds a bundle of long peacock feathers, and they all stand on sand with a row of tents behind them.

Criança Acrobata com Duas Crianças Fantasiadas de Avestruz, Great Royal Circus, Himmatnagar, Índia, 1989. Mary Ellen Mark esteve na Índia pela primeira vez para fazer uma reportagem sobre a cultura do lugar para a revista Life e uma para a Paris Match sobre jovens do ocidente que viajavam pelo país. Nessa viagem teve contato pela primeira vez com os circos do interior e com as prostitutas de Falkland Road, assuntos que revisitou por anos sempre que retornava.

Hippopotamus and performer, Great Rayman Circus. Chennai, India, 1989.

Hipopótamo e Treinadora, Great Rayman Circus. Chennai, India, 1989. 

Ram Prakash com seu elfante Shyama, Great Golden Circus, Ahmedabad, Índia, 1990. 

A black-and-white photograph of a medium-dark skinned toddler seated in a stroller being pushed by a clothed chimpanzee wearing white pants and a button-up shirt. The child has short, dark, curly hair and wears a light colored sundress, and appears apprehensive.

Criança em um Carrinho com um Chimpanzé, India, 1974 

Lot - Mary Ellen Mark (1941-2015) "Portrait of Mother Teresa"

Madre Teresa na Home for the Dying, Calcutá, India, 1980. Mark foi enviada pela revista Life novamente para a Índia, dessa vez para fotografar as Missões de Caridade de Madre Tereza. À parte desse trabalho, suas viagens para lá eram fundadas pela própria fotógrafa ou através de alguma bolsa, o objetivo era construir seu portfólio pessoal.

Mary Ellen Mark | Mother Teresa, Hands in Prayer; and Mother Teresa's Feet,  Calcutta 2 | MutualArt

Mother Tereza, Calcutá, 1981.

In pictures: Vintage photos from Mumbai's notorious Falkland Road | CNN

Falkland Road – Prostitutas de Bombaim. Em sua primeira viagem à Índia em 1968, Mary Ellen Mark visitou o notório distrito da luz vermelha da cidade, onde sempre era recebida com hostilidade tanto pelas trabalhadoras quanto por seus clientes. Retornou várias vezes, fez algumas amizades e, dez anos depois, conseguiu finalmente tirar as fotos.

Mary Ellen Mark Dies at 75 - The New York TimesMary Ellen Mark: Falkland Road. Prostitutes of Bombay - Exibart Street

Rat, 16 e Mike, 17, Seattle, 1983

A black-and-white photograph of two light-skinned girls sitting outside against a wall. The girl on the left stares out of the frame and wears a t-shirt with 'alpha' on it. The girl to the right has her legs folded to her chest, head and arm on her knees, and holds a small flower bouquet.

Adolescentes Fugitivas na Pike Street, Seattle, Washington, 1983

Mary Ellen Mark: Tiny: Streetwise Revisited | MONOVISIONS - Black & White  Photography Magazine

Tiny, Seattle WA, 1983. Mary Ellen Mark conheceu Erin Blackwell (Tiny) nas ruas de Seattle onde fez uma reportagem sobre adolescentes em situação de rua da cidade. Acompanhou a vida de Blackwell por muitos anos, registrando sua transição de uma viciada em drogas que se prostituía nas ruas até trinta anos depois, quando ela era mãe de dez crianças.

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Tiny, Chapéu Preto e Véu, Streetwise, Seattle, 1983

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Tiny, Seattle, Washington, 1983

Tiny: Streetwise Revisited, photographs by Mary Ellen Mark | Aperture

Tiny grávida de Daylon, 1985

Mary Ellen Mark | Tiny and J'Lisa on the couch (2014) | Art & Prints | Artsy

Tiny e J’Lisa no sofá, 2014

J’Lisa Olha Através da Persiana, Streetwise Revisited, 2014. Por trinta e dois anos, Mark documentou a transição de Erin Blackwell (Tiny) de adolescente em situação de rua a prostituta, de viciada em drogas a mãe de dez filhos. Nessa imagem, a filhinha de Blackwell olha pela janela.

Federico Fellini no Set of Satyricon, Roma, Itália, 1969

The cast of Miloš Forman's One Flew Over the Cuckoo's Nest on location at Oregon State Hospital. Salem, Oregon, 1975.

O cast de Um Estranho no Ninho de Miloš Forman no Hospital Psiquiátrico Estadual de Salem, no Oregon, 1975. Foi durante esse trabalho que Mark conheceu o diretor de um hospital psiquiátrico e ele a convidou para visitar o local. Ela ficou muito impactada pela ala feminina de segurança máxima, o Ward 81 e, após muito tempo insistindo, o dr. Dean Brooks lhe concedeu acesso para tirar fotos. Morou por vários meses na instituição junto com as detentas. Pouco se dava atenção para os cuidados aos doentes mentais e esse trabalho de Mark ajudou a colocar uma luz sobre o assunto.

Tommie peeking out of her room, Ward 81, Oregon State Hospital. Salem, Oregon, 1976.

Tommie olhando fora de seu quarto, Ward 81, Hospital Psiquiátrico Estadual. Salem, Oregon, 1976.

Laurie na banheira, Ward 81. Hospital Psiquiátrico Estadual, Salem, Oregon, 1976

PHOTOS: The Essence Of Mary Ellen Mark, The Invisible Made Visible | WUNC  News

Sue Gallo e Faye Gallo no Festival de Gêmeos de Twinsburg, Ohio, 1998 

Tashara e Tanesha Reese. Festival de Gêmeos de Twinsburg, Ohio, 1998. Twinsburg tem esse nome porque foi fundada pelos irmãos gêmeos Moses e Aaron Wilcox no século XIX. É ali que acontece anualmente o festival Twins Days.

Mary Ellen Mark | Jordan and Joseph Basinger, 3 years old, Joseph olde…  (2002) | For Sale | Artsy

Jordan e Joseph Basinger, 3 anos, Festival de Gêmeos de Twinsburg, Ohio, 1998

Mary Ellen Mark | Heather and Kelsey Dietrick, Twinsburg, Ohio (2002) |  MutualArt

Heather e Kelsey Dietrick, Twinsburg, Ohio, 2002

Amanda e sua prima Amy, Valdese, North Carolina, USA, 1990. Mark dizia que não gostava de fotografar crianças como crianças, mas como adultos que é o que realmente são.

Mary Ellen Mark (1940-2015) in The New Yorker | Mary ellen mark, Lone ranger,  Rare

Clayton Moore, o antigo Lone Ranger, Los Angeles, 1992. Moore interpretou o Cavalheiro Solitário na TV entre 1949 e 1957 e continuou usando o traje por décadas após o final do programa. Mary Ellen Mark teve a ideia de fazer uma matéria sobre cowboys de filmes antigos para a revista Premiere. 

Lucas Nathan e Grace Bush-Vineberg, Palisades Charter High School Prom. Los Angeles, Calif´rrnia.

A black and white photograph of a teenage couple in formal clothing. A teen girl with dark skin and straight, dark hair stands slightly in front of a teen boy with dark skin and shortly cropped dark hair. She wears a long, light colored lace dress with a slit on the leg, and a jeweled chain wrapped around her thigh. He wears a white suit with a dark tie.

Ursula Phillips e Gregory Whitlock Jr. Malcolm J. Shabazz High School, Newark, New Jersey, 2006

The Book of Everything, 2020. Publicado pela Steidl em três volumes, contém 500 fotografias de Mary Ellen Mark selecionadas e organizadas por Martin Bell. É a coleção mais compreensiva da sua obra. 

 

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