“Sinto afinidade por pessoas que não tiveram as melhores oportunidades dentro da sociedade. Mais do que qualquer coisa, o que quero fazer é reconhecer sua existência.”
Mary Ellen Mark (1940-2015) foi conhecida por unir documentação social e retrato editorial em uma obra profundamente humanista. Dedicou a vida a fotografar pessoas e contar suas histórias em projetos de longo prazo, chegando a acompanhar um mesmo assunto por décadas. Ao longo de mais de cinquenta anos, viajou pelo mundo registrando adolescentes fugitivos, prostitutas, artistas de circo, pacientes psiquiátricos e outras pessoas à margem da sociedade, enquanto se dedicava com a mesma intensidade ao trabalho editorial e comercial.
Possuía uma rara capacidade de se aproximar das pessoas e
acreditava que a câmera era um passaporte para entrar em suas vidas. Seus retratos eram definidos menos
pela busca do instante decisivo e mais pela convivência, permanência e construção
geral de confiança. Gostava de circos, crianças, adolescentes e animais –
nos animais via um forte antropomorfismo; nas crianças e adolescentes enxergava
indivíduos completos que não deveriam ser tratados com condescendência.
Após estudar pintura e história da arte, Mary Ellen Mark
fez um mestrado em fotojornalismo na universidade de Pensilvânia. Em 1965,
recebeu uma bolsa Fulbright que lhe permitiu passar um ano fotografando na
Turquia. A experiência consolidou seu interesse pela fotografia como forma de
imersão. Pouco depois, passou a viajar extensivamente para países como México e
Índia, ao mesmo tempo em que iniciava uma carreira no mercado editorial norte-americano.
Mark esteve na Índia, que se tornaria um dos centros mais
importantes de sua obra, pela primeira vez em 1968, trabalhando para a revista
Life. Durante essa viagem começou a fotografar temas que revisitaria ao longo de
décadas, como os circos itinerantes do interior e as prostitutas de Falkland
Road, em Mumbai. Em viagens posteriores, também documentou o trabalho de Madre
Teresa e as Missionárias da Caridade. Muitas dessas viagens foram financiadas
pela própria fotógrafa ou por bolsas que recebeu, com o objetivo de construir
um corpo de trabalho independente, sem depender exclusivamente de pautas
editoriais.
Durante os anos 1970 e 1980 colaborou com revistas como a
Life, Look, Rolling Stone e Vanity Fair, produzindo reportagens, retratos e
ensaios fotográficos. Paralelamente, trabalhou em mais de cem sets de
filmagens, fotografando bastidores de produções como Gandhi, The Blues Brothers
e Apocalypse Now. Seu trabalho ia além do registro promocional: Mark tinha uma rara
capacidade de enxergar a atmosfera humana, os relacionamentos e os ânimos
dentro dessas produções. Ao longo da carreira, trabalhou com cineastas como
Federico Fellini, Francis Ford Coppola, François Truffaut e Tim Burton. Durante
as filmagens de Um Estranho no Ninho, conheceu o diretor de um hospital psiquiátrico,
contato que a permitiu produzir posteriormente Ward 81, um de seus grandes
trabalhos documentais.
No final da década de 1970 e início dos 1980, aprofundou
seus trabalhos na Índia e publicou Falkland Read e Indian Circus. Voltava
também sua atenção para seu país, os Estados Unidos, produzindo Streetwise,
talvez seu trabalho mais conhecido. O projeto documentava adolescentes vivendo
nas ruas de Seattle, muitos envolvidos com drogas, prostituição e violência.
Entre eles estava Erin Blackwell, conhecida como Tiny, que Mark continuaria
fotografando por décadas. Essa permanência é fundamental para entender a
fotografia de Mary Ellen Mark: seus projetos raramente terminavam quando a
reportagem era publicada ou o livro era lançado.
Em 1982, casou-se com o cineasta Martin Bell, que dirigiu
o documentário Streetwise, indicado ao Oscar. Nos anos seguintes, Mark
continuou alternando grandes ensaios sociais com projetos observacionais sobre
a cultura americana. Fotografou festivais de gêmeos, bailes de formatura,
famílias não convencionais, idosos, artistas excêntricos e pequenas comunidades
espalhadas pelo país. Mesmo em trabalhos aparentemente menos impactantes,
seguia com seu interesse por identidade, pertencimento e dignidade humana.
A partir de 1990, dedicou-se a orientar fotógrafos e
ministrar workshops, tornando-se referência para gerações mais jovens
interessadas em fotografia documental. Um de seus workshops mais conhecidos
acontecia em Oaxaca, no México, onde incentivava os alunos a desenvolver relações
profundas e honestas com seus fotografados.
Apesar do enorme reconhecimento internacional, Mark teve
dificuldades para se adaptar às mudanças causadas pela internet no mercado
editorial. Nunca aderiu à fotografia digital e permaneceu uma grande defensora
da fotografia analógica em preto-e-branco, continuando a usar Kodak Tri-X e
fazer suas ampliações em gelatina de prata. Acreditava que a fotografia deveria
ser construída na câmera e não no computador, evitando cortes excessivos e
manipulações pesadas em pós-produção. Para ela, cada imagem precisava funcionar
sozinha, independentemente da narrativa maior em que estivesse inserida. Admirava
ensaios clássicos como Country Doctor, de W. Eugene Smith e acreditava que um
fotógrafo deveria perseguir imagens capazes de permanecer fortes mesmo fora do
contexto da reportagem.
Mary Ellen Mark morreu em 2015, aos 75 anos, em Nova York. Continuou fotografando, publicando livros e revisitando os personagens e histórias dedicadas décadas antes até seus últimos anos de vida. Sua obra permanece como uma das mais importantes da fotografia documental, marcada pela capacidade de aproximar o espectador de pessoas e mundos frequentemente ignorados pela fotografia tradicional
A Bela Emine Posando, Trabzon, Turquia, 1965. Mark afirma que essa foi a
fotografia que deu início à sua carreira e determinou o tom que ela queria dar
à sua fotografia. Durante a estada na Turquia, passava os dias andando pelas
ruas em busca de coisas interessantes para fotografar. Encontrou Emine, de quem
fez um retrato e foi convidada para entrar em sua casa e tomar chá com sua mãe,
onde aproveitou para tirar mais fotos. Retornou à Turquia alguns anos depois e
localizou Emine através de sua filha. Mark conta que o retrato de Emine lhe
revelou o caminho que sua fotografia deveria seguir.
Criança Acrobata com Duas Crianças Fantasiadas de Avestruz, Great
Royal Circus, Himmatnagar, Índia, 1989. Mary Ellen Mark esteve na Índia
pela primeira vez para fazer uma reportagem sobre a cultura do lugar para a
revista Life e uma para a Paris Match sobre jovens do ocidente que viajavam
pelo país. Nessa viagem teve contato pela primeira vez com os circos do
interior e com as prostitutas de Falkland Road, assuntos que revisitou por anos
sempre que retornava.
Hipopótamo e Treinadora, Great Rayman Circus. Chennai, India, 1989.
Ram Prakash com seu elfante Shyama, Great Golden Circus, Ahmedabad, Índia, 1990.
Criança em um Carrinho com um Chimpanzé, India, 1974
Madre Teresa na Home for the Dying, Calcutá, India, 1980. Mark foi
enviada pela revista Life novamente para a Índia, dessa vez para fotografar as
Missões de Caridade de Madre Tereza. À parte desse trabalho, suas viagens para
lá eram fundadas pela própria fotógrafa ou através de alguma bolsa, o objetivo
era construir seu portfólio pessoal.
Mother
Tereza, Calcutá, 1981.
Falkland Road – Prostitutas de Bombaim. Em sua primeira
viagem à Índia em 1968, Mary Ellen Mark visitou o notório distrito da luz vermelha
da cidade, onde sempre era recebida com hostilidade tanto pelas trabalhadoras
quanto por seus clientes. Retornou várias vezes, fez algumas amizades e, dez anos
depois, conseguiu finalmente tirar as fotos.
Rat, 16 e Mike, 17, Seattle, 1983
Adolescentes Fugitivas na Pike Street, Seattle, Washington, 1983
Tiny, Seattle WA, 1983. Mary Ellen Mark conheceu Erin
Blackwell (Tiny) nas ruas de Seattle onde fez uma reportagem sobre adolescentes
em situação de rua da cidade. Acompanhou a vida de Blackwell por muitos anos,
registrando sua transição de uma viciada em drogas que se prostituía nas ruas
até trinta anos depois, quando ela era mãe de dez crianças.
Tiny, Chapéu Preto e Véu, Streetwise, Seattle, 1983
Tiny,
Seattle, Washington, 1983
Tiny
grávida de Daylon, 1985
Tiny
e J’Lisa no sofá, 2014
J’Lisa Olha Através da Persiana, Streetwise Revisited, 2014. Por trinta e dois
anos, Mark documentou a transição de Erin Blackwell (Tiny) de adolescente em
situação de rua a prostituta, de viciada em drogas a mãe de dez filhos. Nessa
imagem, a filhinha de Blackwell olha pela janela.
Federico
Fellini no Set of Satyricon, Roma, Itália, 1969
O cast de Um Estranho no Ninho de Miloš Forman no Hospital Psiquiátrico Estadual de Salem, no Oregon, 1975. Foi durante esse trabalho que Mark
conheceu o diretor de um hospital psiquiátrico e ele a convidou para visitar o
local. Ela ficou muito impactada pela ala feminina de segurança máxima, o Ward
81 e, após muito tempo insistindo, o dr. Dean Brooks lhe concedeu acesso para
tirar fotos. Morou por vários meses na instituição junto com as detentas. Pouco
se dava atenção para os cuidados aos doentes mentais e esse trabalho de Mark
ajudou a colocar uma luz sobre o assunto.
Tommie
olhando fora de seu quarto, Ward 81, Hospital Psiquiátrico Estadual. Salem, Oregon,
1976.
Laurie na banheira, Ward 81. Hospital Psiquiátrico Estadual, Salem, Oregon, 1976
Sue Gallo e Faye Gallo no Festival de Gêmeos de Twinsburg, Ohio, 1998
Tashara e
Tanesha Reese. Festival de Gêmeos de Twinsburg, Ohio, 1998. Twinsburg tem
esse nome porque foi fundada pelos irmãos gêmeos Moses e Aaron Wilcox no século
XIX. É ali que acontece anualmente o festival Twins Days.
Jordan e Joseph Basinger, 3 anos, Festival de Gêmeos de Twinsburg, Ohio, 1998
Heather e
Kelsey Dietrick, Twinsburg, Ohio, 2002
Amanda e sua prima Amy, Valdese, North Carolina, USA, 1990. Mark dizia que não gostava de fotografar crianças como crianças, mas como adultos que é o que realmente são.
Clayton Moore, o antigo Lone Ranger, Los Angeles, 1992. Moore interpretou o Cavalheiro Solitário na TV entre 1949 e 1957 e continuou usando o traje por décadas após o final do programa. Mary Ellen Mark teve a ideia de fazer uma matéria sobre cowboys de filmes antigos para a revista Premiere.
Lucas
Nathan e Grace Bush-Vineberg, Palisades Charter High School Prom. Los
Angeles, Calif´rrnia.
Ursula
Phillips e Gregory Whitlock Jr. Malcolm J. Shabazz High School, Newark, New
Jersey, 2006
The Book of Everything, 2020. Publicado pela Steidl em três volumes, contém 500 fotografias de Mary Ellen Mark selecionadas e organizadas por Martin Bell. É a coleção mais compreensiva da sua obra.
LEITURAS E VÍDEOS RECOMENDADOS:
- Site Oficial
- Livros publicados por Mary Ellen Mark
- Mary Ellen Mark’s distinct depictions of girlhood reflect the diverse realities of that word
- Mary Ellen Mark: Falkland Road (artbook)
- An Interview with Mary Ellen Mark (1990)
- The Photo That Made Me: Mary Ellen Mark, Trabzon, Turkey, 1965 (Time Magazine, 2015)
- Tiny: Streetwise Revisited, photographs by Mary Ellen Mark (Aperture, 2016)
- PHOTOS: The Essence of Mary Ellen Mark, the Invisible Made Visible (WUNC News, 2020)
- Where the Magic Happens: On Set with
Mary Ellen Mark
(The Criterion Collection, 2021)
- Mary Ellen Mark was a Master of the Unexpected (The Cut, 2015)
- Tiny Streetwise Revisited – Mary
Ellen Mark (Blog do
Juan Esteves, 2018)
- There is nothing more extraordinary than reality (video, Leica Camera, 2013)
- One of the greatest photographers of all time | Mary Ellen Mark & The Book of Everything (video de Matt Day de 2020, sobre o The Book of Everything, publicação póstuma organizada por Martin Bell)
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