Monday, July 27, 2026

ERNST HAAS

Ernst Haas: Pioneering Street Photographer and Master of Color — about  photography

"Existem dois tipos de fotógrafos: os que compõem fotografias e os que simplesmente as tiram. Os primeiros trabalham em estúdios. Para os outros, o estúdio é o mundo... Para eles, o comum não existe: tudo na vida é fonte de alimento." - Ernst Haas

Ernst Haas (1921–1986) foi um fotógrafo austro-americano considerado um dos pioneiros da fotografia em cores como forma de arte. Sua obra abrange uma ampla variedade de temas, desde o fotojornalismo até composições abstratas e artísticas.

Haas iniciou sua carreira na década de 1940 dedicando-se à fotografia em preto-e-branco. Ganhou destaque ao documentar a Europa depois da Segunda Guerra Mundial e, após a repercussão de um ensaio sobre prisioneiros de guerra austríacos que retornavam ao país, foi convidado por Robert Capa para integrar a recém-criada agência Magnum.  

Um dos momentos mais decisivos de sua trajetória ocorreu em 1953, quando a revista Life publicou Images of a Magic City, um ensaio fotográfico sobre Nova York que se tornou um marco na história da fotografia em cores. Publicado em 24 páginas, tornou-se a primeira grande reportagem ilustrada com fotografias coloridas da revista e revelou uma maneira inteiramente nova de representar a cidade. O sucesso do ensaio consolidou sua reputação internacional e abriu caminho para a histórica exposição que o MoMA lhe dedicaria menos de uma década depois. 

Em 1962, o museu apresentou a exposição Ernst Haas: Color Photography, a primeira individual da instituição voltada ao trabalho em cores de um fotógrafo. Essa exposição tinha sido idealizada durante a gestão de Edward Steichen, que era um entusiasta do trabalho de Haas e tinha incluído fotos dele em sua ambiciosa exposição The Family of Man, de 1955. No entanto, quando finalmente foi inaugurada, o museu já estava sob a direção de John Szarkowski, sucessor de Steichen, que, embora reconhecesse a habilidade técnica de Haas, defendia uma nova direção para a fotografia documental, representada por autores como Robert Frank, Diane Arbus, Lee Friedlander e Garry Winogrand. Nas décadas seguintes, Szarkowski promoveu uma nova geração de fotógrafos, entre eles William Eggleston e Stephen Shore, cujas exposições no MoMA ajudaram a definir a narrativa dominante sobre a fotografia em cores. Embora Haas tivesse aberto esse caminho anos antes, foi essa nova geração que passou a ocupar o centro da narrativa histórica sobre a fotografia em cores.

Haas foi, sem dúvida, um dos pioneiros da fotografia em cores como linguagem artística, mas sua obra não deu origem a um movimento nem estabeleceu uma tradição claramente identificável. Sua linguagem permaneceu profundamente pessoal e dificilmente poderia ser reduzida a um método ou estilo capaz de formar uma geração de seguidores. Essa pode ser uma das razões pelas quais, apesar de seu pioneirismo e reconhecimento em vida, Haas aparece com menos frequência nos livros de história do que sua trajetória faria supor.

Ao longo de sua carreira, recebeu inúmeros prêmios e homenagens por sua contribuição à fotografia. Sua obra continua sendo celebrada e estudada por fotógrafos, apreciadores de arte e historiadores. Faleceu em 12 de setembro de 1986, na cidade de Nova York, deixando um legado de fotografias inovadoras e influentes que continua a inspirar gerações de fotógrafos e artistas.

New York, 1952

New York, 1953 

La Suerte de Capa, Pamplona, Spain, 1956

Race Cars, Indianapolis 500, USA, 1957

Traffic, New York, USA, 1957

Traffic reflection (1957) by Ernst Haas | Artsy

Traffic Reflection, NYC, USA, 1957 

Monument Valley, Utah, 1962

Ernst Haas

Route 66, Albuquerque, New Mexico, 1969 

USA, 1975

Torn Poster II, Redbird, NYC, 1960. Além de suas conhecidas fotografias explorando longas exposições e movimento, Haas também fotografou detalhes de cartazes, vitrines, paredes e outras superfícies urbanas. Esses enquadramentos fechados transformavam elementos comuns em composições quase pictóricas, nas quais a forma prevalece sobre a identificação do assunto.

Torn Poster III – Face, NYC, 1960 

New York, 1957

California, USA, 1977 © Ernst Haas, courtesy Steidl Books

California, USA, 1977

New Orleans, USA, 1960 © Ernst Haas, courtesy Steidl Books

New Orleans, USA, 1960

New York City, USA, 1974 © Ernst Haas, courtesy Steidl Books

New York City, USA, 1974

New York, 1981. 

LEITURAS E VÍDEOS RECOMENDADOS


Friday, July 24, 2026

ED RUSCHA

“I wasn't captivated by the romance of Paris or London. I love visiting, but I'd rather be in L.A.” – Ed Ruscha

Considerado uma das figuras mais influentes da arte contemporânea, Ed Ruscha (n.1937) é um artista associado à Pop Art e à Arte Conceitual. Conhecido por seu uso criativo de tipografia, palavras e frases como elementos visuais, sua produção abrange pintura, desenho, fotografia, gravura e livros de artista. Seus livros, como Twentysix Gasoline Stations (1963), exerceram forte influência sobre a fotografia contemporânea, enquanto suas pinturas ajudaram a ampliar as possibilidades da relação entre texto e arte visual. As icônicas telas à óleo que Ruscha pintou no início dos anos 1960 atingem valores astronômicos:  o recorde foi com Standard Station, Ten-Cent Western Being Torn in Half, vendida por US$ 68,3 milhões.

Ruscha nasceu em Omaha, Nebraska, nos EUA e mudou-se para Los Angeles para estudar no Chouinard Art Institute (atual California Institute of the Arts). Quando decidiu sair de sua região natal, achou que trabalharia como pintor de letreiros, mas acabou indo para o design gráfico. Em 1962, participou da exposição New Painting of Common Objects, considerada um dos marcos da Pop Art americana. Enquanto artistas como Andy Warhol e Roy Lichtenstein voltavam sua atenção para produtos de consumo, histórias em quadrinhos e publicidade, Ruscha encontrou inspiração na paisagem comum do oeste americano: postos de gasolina, estacionamentos, fachadas, piscinas, letreiros e ruas de Los Angeles.

Em 1963 publicou Twentysix Gasoline Stations, um pequeno livro contendo exatamente vinte e seis fotografias de postos de gasolina encontrados ao longo da Rota 66 entre Los Angeles e Oklahoma City. As imagens são simples, diretas e quase impessoais. Cada fotografia traz apenas o nome do posto e sua localização. Hoje considerado um dos livros de artista mais importantes do século XX, o trabalho modificou a maneira de pensar o fotolivro. Ao invés da fotografia como uma imagem única destinada à parede de um museu, Ruscha mostrou que um fotolivro poderia constituir uma obra de arte.

Nos anos seguintes, Ruscha  Various Small Fires and Milk, Some Los Angeles Apartments, Every Building on the Sunset Strip, Thirtyfour Parking Lots in Los Angeles, Nine Swimming Pools and a Broken Glass e Real Estate Opportunities. Todos seguem uma lógica semelhante: escolher um tema extremamente específico, fotografá-lo de maneira objetiva e construir significado por meio da repetição. Em Every Building on the Sunset Strip (1966), por exemplo, registrou toda a extensão de um dos mais famosos boulevards de Los Angeles em uma longa sequência fotográfica apresentada em formato sanfonado, uma solução gráfica que se tornaria um dos livros de artista mais celebrados do século XX.

Embora a fotografia ocupasse um papel central em muitos desses projetos, Ruscha nunca demonstrou interesse em produzir imagens tecnicamente virtuosas ou fotografias destinadas a serem apreciadas isoladamente. Para ele, a câmera funcionava como uma ferramenta de registro e investigação. O interesse estava na ideia, na sequência e na relação entre as imagens. Essa maneira de pensar exerceu grande influência sobre o desenvolvimento do fotolivro, da fotografia conceitual e de autores como Stephen Shore, Lewis Baltz, Robert Adams, Joe Deal e John Gossage, além de dialogar com a fotografia tipológica desenvolvida por Bernd e Hilla Becher.

Ao longo da carreira, Ruscha recebeu algumas das mais importantes homenagens do mundo da arte. Em 2005, representou os Estados Unidos na 51ª Bienal de Veneza, um dos maiores reconhecimentos que um artista americano pode alcançar. Sua participação confirmou aquilo que museus e críticos já reconheciam havia décadas: que sua obra havia ampliado as possibilidades da pintura, do livro de artista e da fotografia, tornando-se uma referência para diferentes gerações de artistas. 

Edward Ruscha. New Painting of Common Objects. 1962 | MoMA

Pôster da exposição “New Painting of Common Objects” organizada por Walter Hopps, realizada no Pasadena Art Museum em 1962. Quando questionado sobre a abundância de texto em seu trabalho, Ruscha respondeu que “eu simplesmente pinto palavras como alguém pinta flores”.

Ed Ruscha | Gasoline Stations | Photographs | Photographs | Sotheby's

Gasoline Statons, 1962.

 

 

Edward Ruscha 'Twentysix Gasoline Stations' 1963 | Tate

Twentysix Gasoline Stations, 1963. Foi uma publicação modesta composta por fotografias preto-e-branco de postos de gasolina, tiradas no trajeto entre a casa de Ruscha em Los Angeles e a de seus pais em Oklahoma City. Foi seu primeiro e é um dos livros de artista mais famosos e icônicos. A primeira tiragem de Twentysix foi de apenas 400 cópias numeradas, que ele vendou por apenas três dólares. Depois, fez tiragens maiores que não eram assinadas porque sua intenção não era criar um livro de tiragem limitada, mas algo produzido em massa.

Em seu influente ensaio “Marks of Indifference: Aspects of Photography in, or as, conceptual Art”, de 1995, Jeff Wall descreveu Twentysix Gasoline Stations como um gesto radical de redução conceitual. Segunto ele, a reação inicial do meio artístico poderia ser resumida da seguinte forma: “só um idiota fotografaria apenas postos de gasolina e a existência de um livro composto exclusivamente por elas é uma espécie de prova de que essa pessoa existe”. A provocação de Wall destacava o quanto o projeto de Ruscha contrariava as expectativas tradicionais sobre o que uma fotografia e um livro de fotografias deveriam ser. Para ele, Ruscha assumia deliberadamente o papel de um “não artista” ao produzir imagens desprovidas da sofisticação formal normalmente associada à fotografia de arte. As imagens são simples, banais e desinteressantes, mostrando que Ruscha rompia com os critérios convencionais da fotografia artística e fazia do próprio ato de fotografar uma investigação conceitual. 

Ed Ruscha Antique Some Los Angeles Apartments Dust Jacket Available For  Immediate Sale At Sotheby's

Some Los Angeles Apartaments, 1965. Esse livro está disponível na biblioteca do IMS-SPConcerning "Various Small Fires" An Interview with Edward Ruscha

Various Small Fires and Milk, 1964

Nine Swimming Pools (1968-1997) by Ed Ruscha | Artsy

Nine Swimming Pools (1968-1997) 

Ed Ruscha | Every Building on the Sunset Strip (1966) | MutualArtEd Ruscha's "Every Building on the Sunset Strip" – Orange Furniture Los  Angeles

Every Building on Sunset Strip, 1966. Quando Ruscha se mudou para Los Angeles, conheceu a Sunset Boulevard, uma avenida que percorre mais de 40 quilômetros. Dentro dela há um trecho chamado Sunset Strip, que o inspirou visualmente na década de 1960. Para tirar fotos do Strip, Ruscha carregou uma Nikon F2 motorizada com filme preto-e-branco de 35mm e a montou em um tripé na traseira de uma caminhonete. Tirou fotografias em sequência enquanto seguia pela avenida. Retratou ao mesmo tempo a expansão urbana de Los Angeles e a cultura automobilística. Ele basicamente fez uma série de registro do Google Maps décadas à frente de nosso tempo!

Fez então mais um livro barato, em formato acordeom, com duas tiras de imagens: um lado da avenida fica no topo e o outro no fundo de cabeça para baixo, como se o centro entre os dois fosse a avenida e a pessoa pudesse olhar para cada um dos lados. Ruscha não se interessava em produzir livros caros ou elaborados porque afirmava que a natureza de suas fotografias, nesse caso, era informativa e descartava a hipótese de que seu trabalho possuísse elementos subjetivos ou artísticos. 

Exploring Ed Ruscha's Standard Station

Standard Station, 1966. A partir de seu influente livro de artista Twentysix Gasoline Stations, Ruscha transformou o posto de gasolina comum em uma representação icônica da paisagem americana. Essa obra, juntamente com suas diferentes versões, evidencia a abordagem experimental de Ruscha na gravura e sua exploração do motivo do posto de gasolina, consolidando-o como um símbolo do imaginário visual da América moderna.

Ed Ruscha's 10 Most Famous Artworks | MyArtBroker | Article

Honk, 1962. A linguagem é um tema constante em sua produção, cuja forma e significado ele vem explorando continuamente ao longo de mais de seis décadas. Ruscha iniciou sua carreira estudando arte comercial e trabalhando com design gráfico e diagramação e incorporou o repertório tipográfico à sua produção artística. Logotipos, letreiros, palavras e expressões deixaram de ser apenas elementos auxiliares para ocupar o centro de suas pinturas, desenhos e livros de artista. Sua influência pode ser percebida em várias manifestações da cultura visual contemporânea.

Edward Ruscha. Annie. 1962 | MoMA

Annie, 1962. É uma obra fundamental de Ruscha, que evidencia sua evolução em direção ao uso característico de palavras e referências à cultura popular. Nessa pintura de quase 1,80 metro de altura, Ruscha utiliza o nome "Annie", da história em quadrinhos Little Orphan Annie, combinado a um forte contraste cromático que divide a tela em duas metades distintas. Na parte superior, a palavra aparece em vermelho intenso sobre um fundo amarelo; na inferior, o espectador é envolvido por um profundo campo azul. A obra marca um momento decisivo na carreira de Ruscha, refletindo seu interesse pelo poder das palavras e por sua representação visual. Ao mesmo tempo, insere sua produção no contexto mais amplo da Pop Art, distinguindo sua abordagem da de artistas como Andy Warhol e Roy Lichtenstein: em vez de enfatizar a personagem Annie, Ruscha concentra sua atenção nos aspectos formais da tipografia e da própria palavra como imagem.

Annie, Poured from Maple Syrup » Norton Simon Museum

Annie, Poured from Maple Syrup, 1966. É uma pintura em trompe-l'œil na qual a palavra "Annie" parece ter sido escrita com um espesso xarope de bordo dourado sobre um vibrante fundo amarelo. Em sua obra, Ruscha frequentemente explora a relação entre linguagem, cultura popular e materiais orgânicos inesperados. Embora Annie, Poured from Maple Syrup utilize uma pintura ilusionista para representar um alimento comum do café da manhã, o artista também empregou alimentos e produtos domésticos como pigmentos em gravuras e trabalhos sobre papel. A partir do final da década de 1960, passou a produzir obras utilizando materiais pouco convencionais, como chocolate, espinafre, ketchup, suco de mirtilo, pimenta-caiena e mostarda. 

SPAM (1962) (2024) by Ed Ruscha - For Sale | Artsy

Actual Size, 1962. Um exemplo do envolvimento inicial de Ruscha com a Pop Art, ao explorar a produção em massa e a cultura do consumo. A obra, que tem 1,83m por 1,70m, apresenta o nome da marca Spam em grandes dimensões junto com uma lata em tamanho real e simboliza o consumismo da época e os mecanismos publicitários que ampliavam o apelo dos produtos do cotidiano.  

LEITURAS E VÍDEOS RECOMENDADOS

 

Thursday, July 23, 2026

ARBUS, FRIEDLANDER E WINOGRAND | NEW DOCUMENTS (1967)

 Arbus, Friedlander, Winogrand - New Documents 1967

“Essa exposição descreve o trabalho desses três jovens fotógrafos que adotaram a estética da fotografia documental para fins não-sociais e pessoais”. - John Szarkowski

New Documents foi uma exposição realizada no Museu de Arte de Nova York (MoMA) em 1967, com curadoria do então diretor do departamento de fotografia John Szarkowski (1925-2007). Mostrou o trabalho de apenas três fotógrafos: Diane Arbus (1923-1971), Lee Friedlander (n.1934) e Garry Winogrand (1928-1984). É considerada uma das exposições mais relevantes do século XX.

Szarkowski observou que fotógrafos documentaristas de gerações anteriores, como Lewis Hine, Jacob Riis e Dorothea Lange, faziam seu trabalho em nome de causas sociais, com o objetivo de mostrar o que estava errado no mundo. Com isso, esperavam persuadir quem visse suas fotos a agir para mudar essa realidade. Por volta de 1960, no entanto, uma nova geração de fotógrafos passou a usar suas câmeras em nome de algo muito mais pessoal: não desejavam mudar o mundo, mas conhecê-lo e experimentá-lo como ele já era.

Essa costuma ser a principal ideia associada à exposição, comumente reduzida a “eles não queriam mudar o mundo”, mas o texto de Szarkowski vai além. Segundo ele, Arbus, Friedlander e Winogrand não apenas deixaram de lado a ambição de transformar a sociedade como também desconfiavam das grandes justificativas intelectuais para fotografar. O que os movia era a curiosidade, o fascínio e, muitas vezes, o estranhamento diante da vida comum. Szarkowski via nos três a expressão mais acabada dessa nova atitude diante da fotografia, ainda que suas raízes pudessem ser percebidas em trabalhos produzidos alguns anos antes. Embora possuíssem estilos e pontos de vista bastante distintos, compartilhavam a convicção de que o cotidiano merecia um olhar atento, sem grandes justificativas para fotografá-lo.

“Talvez esses três fotógrafos preferissem que suas fotografias fossem vistas não como arte, mas como vida. Isso não é inteiramente possível porque, afinal de contas, uma fotografia é apenas uma fotografia. Mas essas fotografias podem muito bem mudar nossa percepção de como é a vida”, afirmou Szarkowski. Daí o nome New Documents, que sugeria uma redefinição da função e do propósito da fotografia documental.

Diane Arbus nos mostrava, por meio de seus retratos, que todos nós, fôssemos comuns ou exóticos, éramos fascinantes quando vistos de perto. Lee Friedlander, por sua vez, tinha uma visão eclética do que merecia ser fotogrado, das vitrines tão presentes em seu trabalho e de seus autorretratos originais ao interior das casas das pessoas. Já Garry Winogrand tinha um gosto pela vida que superava seu respeito pela arte e mostrava o lado bem-humorado e vulgar da humanidade.

O LIVRO

Na ocasião da exposição, em 1967, não foi publicado um catálogo para acompanhá-la. Em 2017, para marcar os 50 anos de New Documents, o MoMA publicou este livro, que reúne uma grande quantidade de material relacionado ao evento: fotografias da abertura, listas de convidados de cada fotógrafo, matérias publicadas em jornais como o New York Times e cartas enviadas ao museu por visitantes, tanto elogiando quanto criticando a exposição, entre muitas outras coisas interessantes.

Após o encerramento no Museu de Arte Moderna de Nova York, a exposição percorreu mais de dez outras instituições nos Estados Unidos e no Canadá, entre elas o Museu de Arte de São Francisco e as universidades do Missouri e Cornell. A equipe de Szarkowski enviava todo o material da exposição acondicionado em apenas duas caixas para cada instituição interessada, tornando a instalação muito mais simples, especialmente em museus e universidades menores, com menos infraestrutura do que o MoMA.

O livro reproduz o texto original de Szarkowski que, como a maior parte do que ele escreveu, é extremamente prazeroso de ler e ajuda a compreender o contexto das ideias que procurava materializar. Traz também o texto que o escritor, crítico e fotógrafo Max Kozloff publicou na revista semanal The Nation quando a exposição foi inaugurada, além de outro ensaio escrito especialmente para a edição de 2017. Completam a publicação textos de Sarah Meister, então curadora do Departamento de Fotografia do MoMA, e de Glenn D. Lowry, diretor do museu entre 1995 e 2025.

A seleção de Diane Arbus reúne alguns de seus retratos mais conhecidos, como as gêmeas de Roselle e o jovem com bobes no cabelo. Há também um grande número de fotografias de nudistas, mas nenhuma de suas visitas a circos.

A seleção de Lee Friedlander é mais variada. Além de suas conhecidas fotografias de rua, estão presentes as famosas imagens de televisores ligados dentro de ambientes domésticos. Ao contrário de Arbus, que fotografou principalmente nos arredores de Nova York, Friedlander percorreu boa parte dos Estados Unidos. Não por acaso, costuma ser considerado o equivalente visual de Jack Kerouac, escritor da Beat Generation.

Dos três, Winogrand é o fotógrafo com cuja obra tenho menos familiaridade. Assim como Friedlander, sua seleção reúne imagens produzidas em diferentes cidades do país, embora ele seja mais conhecido pela fotografia de rua em Manhattan. Aliás, para quem — como eu — o associa fortemente a esse gênero, muitas das fotografias apresentadas aqui fogem bastante dessa expectativa.

Outra coisa que chama a atenção é o tamanho das fotografias. Vistas hoje, elas parecem surpreendentemente pequenas quando comparadas às ampliações que passaram a dominar galerias, museus e feiras de arte nas últimas décadas. A partir da fotografia digital, impressões em grandes formatos tornaram-se cada vez mais comuns e valorizadas. Em New Documents, porém, a escala era bem diferente. Além de refletir outra época da fotografia, acabava tornando a exposição mais simples de transportar e montar em outras instituições.

Tuesday, July 7, 2026

EDWARD WESTON E O GRUPO F.64

 Group f/64 - Wikipedia

“O nome deste Grupo deriva de um número de diafragma da lente fotográfica. Ele representa, em grande medida, as qualidades de clareza e definição da imagem fotográfica, que constituem um elemento importante no trabalho dos membros deste Grupo.

O principal objetivo do Grupo é apresentar, em exposições frequentes, aquilo que considera a melhor fotografia contemporânea do Oeste; além da exibição do trabalho de seus membros, incluirá também cópias fotográficas de outros fotógrafos que demonstrem, em seu trabalho, tendências semelhantes às do Grupo.

O Grupo f.64 não pretende abranger todo o espectro da fotografia nem indicar, por meio de sua seleção de membros, qualquer opinião depreciativa em relação aos fotógrafos que não estejam incluídos em suas exposições. Existe um grande número de fotógrafos sérios cujo estilo e técnica não se relacionam com o métier do Grupo.

O Grupo f.64 limita seus membros e convidados àqueles que se esforçam para definir a fotografia como uma forma de arte por meio de uma apresentação simples e direta, utilizando métodos puramente fotográficos. O Grupo não exibirá, em nenhum momento, trabalhos que não estejam de acordo com seus padrões de fotografia pura. A fotografia pura é definida como aquela que não possui qualidades de técnica, composição ou ideia derivadas de qualquer outra forma de arte. A produção dos ‘pictorialistas’, por outro lado, indica uma devoção a princípios artísticos que estão diretamente relacionados à pintura e às artes gráficas.

Os membros do Grupo f.64 acreditam que a fotografia, como forma de arte, deve desenvolver-se segundo linhas definidas pelas realidades e limitações do meio fotográfico, devendo permanecer sempre independente de convenções ideológicas da arte e da estética que remetem a um período e a uma cultura anteriores ao desenvolvimento do próprio meio.

O Grupo apreciará receber informações sobre qualquer trabalho fotográfico sério que tenha escapado à sua atenção e é favorável a estabelecer-se como um Fórum da Fotografia Moderna.”

- Manifesto exibido na exposição do Grupo f.64 em 1932

O Grupo f.64 foi um coletivo de fotógrafos formado na Califórnia em 1932 que defendia uma fotografia direta, nítida e baseada nas características próprias do meio fotográfico. Seu nome fazia alusão à pequena abertura do diafragma, usada em câmeras de grande formato para obter máxima profundidade de campo e riqueza de detalhes.

Entre seus integrantes estavam Edward Weston (1886-1958), Ansel Adams (1902-1984), Imogen Cunningham (1883-1976), Sonya Noskowiak (1900-1975), John Paul Edwards (1884-1968), Henry Swift (1891-1962) e Willard Van Dyke (1906-1986). Além dos membros oficiais, fotógrafos como Consuelo Kanaga, Alma Lavenson, Brett Weston e Preston Holder participaram de exposições ou mantiveram estreita relação com o grupo.

O grupo surgiu em um momento em que a fotografia ainda buscava afirmar sua identidade como forma de arte. Durante décadas, muitos fotógrafos tinham procurado aproximar suas imagens da pintura utilizando foco suave, manipulações de laboratório e processos que produziam resultados semelhantes aos das artes gráficas. Esse movimento ficou conhecido como Pictorialismo. Já os integrantes do f.64 defendiam uma abordagem diferente: para eles, a fotografia deveria explorar aquilo que lhe era próprio, ou seja, a capacidade de registrar detalhes com precisão, reproduzir texturas e utilizar a nitidez como elemento expressivo. Seu manifesto defendia uma fotografia que não imitasse a técnica, composição ou ideia de outras formas de arte.

Quando o grupo foi fundado, Edward Weston já era uma figura central na fotografia da costa oeste. Nascido em 1886, era um dos mais velhos do grupo e reconhecido por seu trabalho. Começou no Pictorialismo, mas muitas das ideias associadas ao f.64 já estavam presentes em sua obra antes da fundação do f.64. A partir da década de 1920, especialmente após sua passagem pelo México, passou a desenvolver uma linguagem baseada na observação direta e valorização das formas. Seus retratos, estudos de objetos comuns, conchas, vegetais e paisagens provavam que a fotografia não precisava imitar a pintura para alcançar expressão artísticas. Nautilus e Pepper No.30 tornaram-se exemplos emblemáticos dessa abordagem.

Embora o manifesto do grupo estivesse concentrado em questões formais e estéticas, alguns desses fotógrafos passaram cada vez mais a utilizar sua câmera para abordar questões sociais, políticas e ambientais. Muito disso se deu pela influência de Dorothea Lange que, apesar de nunca ter sido membro, era próxima de seus integrantes. O trabalho de Lange seguia outra direção, voltada para pessoas e problemas sociais, em especial após a Grande Depressão iniciou a tradição da fotografia documental nos Estados Unidos, que teve enorme importância e espaço nas décadas seguintes.

Devido a isso, os integrantes do f.64 acabariam trilhando caminhos distintos: Ansel Adams se tornou um grande ativista ambiental e atuou junto ao Sierra Club. Willard Van Dyke se aproximou do documentário social por meio do cinema e Imogen Cunningham embarcou na fotografia comercial, tornando sua produção mais diversa e menos presa a definições rígidas.

Edward Weston foi quem se manteve próximo do projeto estético que ajudou a consolidar, não se interessava por política ou problemas sociais. Até o final da carreira continuou reafirmando a ideia de que a fotografia poderia encontrar sua força na arte justamente nas características próprias do meio.

Apesar de sua breve duração, o grupo f.64 ocupa um lugar central na história da fotografia americana. Seus integrantes ajudaram a consolidar a fotografia direta como uma linguagem artística legítima e influenciaram gerações de fotógrafos que vieram depois. Mais do que um grupo unido por temas ou assuntos específicos, o f.64 foi uma reunião de artistas que compartilhavam uma mesma convicção: a fotografia deveria desenvolver-se a partir de suas próprias possibilidades, sem depender dos modelos herdados da pintura ou das artes gráficas.

SOBRE O LIVRO GROUP F.64 DE MARY STREET ALINDER

Imagem da capa gerada por IA, porque eu tenho a versão para Kindle.

Mary Street Alinder, que também escreveu a biografia de Ansel Adams, está em posição privilegiada para escrever essa biografia do grupo. Ex-assistente de Adams, conheceu pessoalmente a maioria dos artistas apresentados. Esse livro detalha um período transformador na história da fotografia e da arte e Alinder é uma grande escritora.

MEMBROS DO GRUPO

Edward Weston (1886–1958) foi considerado um dos nomes mais influentes e inovadores da fotografia do século XX. Iniciou sua carreira produzindo imagens pictorialistas, mas tornou-se um dos principais defensores da fotografia direta, caracterizada pela nitidez e riqueza de detalhes. Ao longo de sua trajetória fotografou paisagens, retratos, nus e naturezas-mortas, criando algumas das imagens mais icônicas da fotografia moderna, incluindo seus famosos pimentões, conchas e dunas da Califórnia.

Edward Weston Biography — The Weston Collective

Pepper no. 30, 1930.

Nude woman with arms and head tucked sitting

Nude in Doorway, 1936

Imogen Cunningham (1883–1976) foi uma fotógrafa americana cuja carreira atravessou praticamente todo o século XX. Trabalhou com retratos, estudos botânicos, nus, fotografia comercial e fotografia de rua, além de lecionar fotografia ao longo da carreira. É especialmente lembrada pelas fotografias de plantas e flores produzidas com grande nitidez e riqueza de detalhes, mas também pelos retratos de artistas, escritores e fotógrafos que documentam a vida cultural americana de sua época.

Imogen Cunningham – Filmes, Biografia e Listas na MUBI

Imogen Cunningham. Magnolia Blossom. c. 1925 | MoMA

Magnolia Blossom, 1925

Frida Kahlo Rivera, Painter, 1931, Imogen Cunningham. Gelatin silver print. Getty Museum, Gift of Daniel Greenberg and Susan Steinhauser. © The Imogen Cunningham Trust

Frida Kahlo, 1931  

Ansel Adams (1902–1984) foi célebre por suas paisagens do Oeste dos Estados Unidos, especialmente do Parque Nacional de Yosemite. Defensor da fotografia como forma de expressão artística, desenvolveu com Fred Archer o Sistema de Zonas, método que permitia controlar com precisão a exposição e a tonalidade das imagens. Seu trabalho teve grande influência tanto na fotografia quanto na preservação ambiental.

Ansel Adams – Wikipédia, a enciclopédia livre

Ansel Adams | Holden Luntz Gallery

Cathedral Peak and Lake, Yosemite National Park

Moonrise, Hernandez, New Mexico – The Ansel Adams Gallery

Moonrise, Hernandez, New Mexico 

Sonya Noskowiak (1900–1975) foi uma fotógrafa nascida na Alemanha. Após emigrar para os Estados Unidos, tornou-se assistente e posteriormente companheira de Edward Weston, desenvolvendo uma carreira própria marcada por paisagens, retratos e estudos de formas naturais. Embora menos conhecida que alguns de seus contemporâneos, produziu um conjunto de obras que exemplifica os princípios da fotografia moderna da Costa Oeste.

Sonya Noskowiak - Dean Jeffries PhotographySonya Noskowiak, Shell, 1937 · SFMOMA

Shell, 1937

Sonya Noskowiak, Edith Hamlin, 1937 · SFMOMA

Edith Hamlin, 1937

Willard Van Dyke (1906–1986) foi fotógrafo, cineasta e curador. Interessou-se inicialmente pela fotografia moderna, produzindo imagens de paisagens e cenas urbanas, mas mais tarde direcionou sua atenção ao cinema documental. Seu trabalho ajudou a aproximar fotografia, cinema e questões sociais em um período de grande transformação cultural nos Estados Unidos.

Willard Van Dyke · SFMOMA

Fence Post and Barbed Wire, 1930

Willard Van Dyke | MoMA

Ansel Adams at 683 Brockhurst, 1933

John Paul Edwards (1884–1968) foi conhecido principalmente por suas paisagens e estudos da natureza. Menos famoso que outros colegas de sua geração, produziu imagens marcadas pela clareza formal e pela atenção aos detalhes. Sua obra reflete o interesse pela fotografia direta e pela observação cuidadosa do ambiente natural.

John Paul Edwards, Boats and Spars, ca. 1937 · SFMOMA

Boats and Spars, 1937

John Paul Edwards | 3 Works: Landscape Photographs (1930) | MutualArt

Majesty in Death, 1930

Henry Swift (1891–1962) se dedicou à fotografia apenas após estabelecer carreira na área financeira. Produziu principalmente paisagens, cenas naturais e estudos arquitetônicos. Embora tenha deixado uma obra relativamente pequena, suas fotografias são reconhecidas pela precisão técnica e pela forte adesão aos princípios da fotografia moderna.

Henry Swift, Strolling Musician, Spain, ca. 1930 · SFMOMA

Strolling Musician, Spain, 1930

Henry Swift · SFMOMA

Cabin, Tioga Pass, 1935

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