Monday, September 28, 2026

MARY FREY | DOMESTIC RITUALS E REAL LIFE DRAMAS

 Bio | mary-frey-photo

“Em meados dos anos 1980, a noção de que uma fotografia apresenta uma representação objetiva da realidade estava sendo questionada por muitos fotógrafos, inclusive por mim. Como o significado é atribuído a uma imagem? Como o enquadramento, o ponto de vista, a representação e todas as outras escolhas feitas por um fotógrafo influenciam esse significado? Uma fotografia pode realmente capturar a verdade? Eu argumentaria que uma fotografia contém sua própria verdade — ou ficção — e é aí que reside sua força. O fato de confiarmos naquilo que a fotografia nos mostra alimenta esse conceito, dando-lhe credibilidade.”

O interesse de Mary Frey pela fotografia começou quando, ainda na faculdade, encontrou uma cópia de The Decisive Moment, de Cartier-Brésson. O que mais a fascinou naquelas imagens não foi somente a capacidade de registrar um acontecimento quando ocorria, mas a maneira como a fotografia podia conter sua própria ficção. Essa questão estaria no centro de dois de seus principais trabalhos (Domestic Rituals e Real Life Dramas), nos quais cenas cuidadosamente construídas assumem a aparência de acontecimentos espontâneos. Uma fotografia PARECE documental sem necessariamente SER documental, possibilidade explorada de diferentes maneiras por fotógrafos como Jeff Wall, Gregory Crewdson e Philip-Lorca DiCorcia, entre outros.

Mary Frey (1948-) é uma fotógrafa americana que estudou na Universidade de Yale na década de 1970 e lecionou por mais de 30 anos. Seu trabalho começou a ganhar reconhecimento na década de 1980, período em que produziu suas séries mais conhecidas e participou de importantes exposições no MoMA. Posteriormente, Frey diminuiu sua atuação no circuito artístico para se dedicar à família e ao ensino.

A série Domestic Rituals foi produzida entre 1979 e 1983 e nasceu do interesse de Frey pelo snapshot como registro e como formador da memória, combinado à sua curiosidade pela aparente capacidade da fotografia direta da oferecer uma representação verdadeira e precisa de um acontecimento. As imagens mostram atividades banais da vida cotidiana, como pessoas cozinhando, tomando café, arrumando o cabelo, e poderiam facilmente ser interpretadas como registros espontâneos da vida doméstica de famílias de classe média.  

Nada nelas, porém, é tão espontâneo quanto parece: Frey procurava deliberadamente essas situações, organizava pessoas e objetos e dirigia seus sujeitos para que parecessem realmente envolvidos nas atividades que estavam realizando. Fotografadas em preto e branco com câmera de grande formato e iluminação difusa de flash, as cenas adquirem a aparência quase documental que ela buscava, embora tenham sido construídas como pequenos tableaux vivants.

Frey não tinha como objetivo criar uma ficção para fazê-la passar por realidade, mas usar essa ambiguidade para questionar a credibilidade que atribuímos à fotografia. Ela chama suas construções de “iconografia dos costumes da classe média” – iconografia aqui, dizendo respeito a um repertório de elementos visualmente reconhecíveis que, repetidos e associados entre si, passam a representar uma determinada maneira de viver.

Em Real Life Dramas, realizado entre 1984 e 1987, Frey continuou explorando os limites entre acontecimento e encenação, mas introduziu algumas mudanças importantes: adotou filme colorido e acrescentou textos às fotografias. As situações continuavam sendo inteiramente preconcebidas e construídas e, como em Domestic Rituals, continuaram conservando uma aparência documental. Os textos eram gerados fotograficamente e impressos nas molduras brancas das imagens, imitando a linguagem melodramática da ficção popular barata.

Em 1986, a série foi parte da exposição New Photography 2, realizada no MoMA, e Frey retornaria à instituição em uma exposição que se tornaria uma importante referência para a fotografia daquele período: Pleasures and Terrors of Domestic Comfort, organizada por Peter Galassi em 1991.

Apesar da presença nessas exposições e o reconhecimento recebido no início da carreira, Frey permaneceu relativamente fora do circuito nas décadas seguintes. Ao diminuir sua atuação pública para dedicar-se à família e à carreira de professora, boa parte de seu trabalho permaneceu conhecida apenas por quem o havia acompanhado originalmente. Em 2017 isso mudou, quando as fotografias de Domestic Rituals foram reorganizadas e publicadas no livro Reading Raymond Carver. No ano seguinte, Real Life Dramas também ganharam um livro.

Um outro aspecto interessante no trabalho de Mary Frey é que, mesmo encenadas, suas fotografias acabaram se tornando documentos do mundo em que foram produzidas. As situações podem ter sido construídas para a câmera, mas as roupas, objetos, interiores, gestos e códigos sociais pertencem àquele tempo. A fotografia pode não registrar um acontecimento verdadeiro e, ainda assim, registrar o mundo que tornou aquela cena possível.

Woman with Pie

Woman with Pie (Mulher com Torta), Domestic Rituals. Os títulos de Domestic Rituals são descritivos e impessoais. Ao invés de identificar as pessoas ou sugerir histórias particulares, eles reduzem as cenas a uma espécie de fórmula: uma pessoa, um objeto, uma atividade. Neles, há algo que remete a um catálogo ou manual de conduta, como se Frey estivesse inventariando comportamentos e pequenos rituais da classe média. A fotografia é repleta de detalhes particulares, o título transforma a situação em uma categoria.

Vistas assim, as fotografias adquirem um caráter quase antropológico, como um catálogo de costumes de uma determinada sociedade e de uma determinada época. Mesmo que as situações tenham sido encenadas, elas preservam roupas, objetos, interiores, gestos e comportamentos que, até então, pareciam formar uma representação plausível da vida cotidiana. A fotografia pode não documentar um acontecimento verdadeiro e, ainda assim, documentar o mundo que tornou essa representação possível.

Women at Coffee Break

Women at Coffee Break (Mulheres na Pausa para o Café

Woman Applying Make-Up

Woman Applying Make-Up (Mulher Passando Maquiagem), Domestic Rituals.

Woman and Child at Breakfast

Woman and Child at Breakfast (Mulher e Criança no Café da Manhã), Domestic Rituals.

Mary Frey | photoparley

Man Fastening Pearls (Homem fechando um Colar de Pérolas). Domestic Rituals.

Mary E. Frey. Untitled from the series Real Life Dramas. 1984-87 | MoMA

Real Life Dramas

 

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