
“Como
diz o ditado, vemos de acordo com nossa educação. Olhamos para o mundo e vemos
aquilo que aprendemos a acreditar que está lá. Fomos condicionados a ter
determinadas expectativas. E, de fato, é socialmente útil que concordemos
quanto à função dos objetos. Mas, como fotógrafos, precisamos aprender a
flexibilizar nossas crenças. Mova-se em torno dos objetos com o olhar
diretamente à frente, para a esquerda, contornando-os pela direita. Observe
como eles aumentam à medida que você se aproxima, como se agrupam e se
reagrupam conforme você muda de posição. As relações surgem gradualmente e, às
vezes, se afirmam de maneira definitiva. E essa é a sua fotografia.”
Aaron Siskind (1903-1991) foi um fotógrafo americano conhecido principalmente por suas fotografias abstratas de paredes, cartazes rasgados, superfícies deterioradas e objetos encontrados. Sua carreira, no entanto, começou na fotografia documental, com projetos dedicados à vida cotidiana e às condições sociais dos habitantes de Nova York.
Siskind estudou literatura no
City College e trabalhou como professor de inglês. Ingressou na Film and Photo
League, uma organização que defendia o uso da fotografia e do cinema para
documentar problemas sociais. Em 1936, após a divisão dessa organização, passou
a integrar a recém-formada Photo League, onde liderou o Feature Group,
dedicado à produção coletiva de ensaios documentais. Sob sua orientação, o
grupo realizou projetos como Portrait of a Tenement, Dead End: The
Bowery e Harlem Document. O trabalho envolvia pesquisa, visitas aos
locais, contato com os moradores e discussões sobre as fotografias produzidas. Entre
esses, Harlem Document tornou-se o mais conhecido. Realizado entre 1937 e 1940,
reuniu fotografias cotidianas do bairro. As imagens procuravam mostrar não
apenas as condições de vida da população, mas a relação das pessoas com os espaços
em que viviam.
Essa preocupação com a sociedade
caracterizou a primeira fase da carreira de Siskind, mas ainda na Photo League
ele começou a desenvolver outros interesses fotográficos. Um dos trabalhos mais
importantes nessa mudança foi Tabernacle City, realizado em Martha’s Vineyar, Massachussetts.
O projeto documentava a arquitetura de uma comunidade formada em torno de reuniões
religiosas metodistas, com pequenas construções que preservavam características
de sua história. Embora ainda possuísse uma preocupação documental, Siskind
demonstrava crescente interesse pelas formas, estruturas e relações visuais das
construções.
Quando apresentou o trabalho à
Photo League, ele foi criticado por integrantes que consideravam sua abordagem
excessivamente formalista e distante das preocupações sociais da organização.
Essas divergências contribuíram para seu afastamento da liga no mesmo ano.
No verão de 1944, Siskind passou
por uma experiência decisiva ao fotografar objetos encontrados nas praias e nos
cais de Gloucester, Massachusetts. No ensaio The Drama of Objects,
publicado em 1945, explicou que, pela primeira vez, o assunto fotografado havia
deixado de ser sua principal preocupação. Sua atenção passou a se concentrar
nas relações visuais entre os elementos da composição, resultando em
fotografias que considerava experiências profundamente pessoais.
Essa transformação ajuda a
compreender a linguagem pela qual ele ficou conhecido. Ao fotografar uma parede
descascada ou um cartaz rasgado, ele não procurava necessariamente documentar o
lugar onde esses elementos estavam. Interessava-se pelas formas, linhas,
manchas, texturas e áreas claras e escuras que encontrava.
A abstração, no entanto, não
dependia exclusivamente de paredes e superfícies deterioradas. Na série The
Pleasures and Terrors of Levitation, desenvolvida a partir dos anos 1950, Siskind
fotografou mergulhadores durante seus saltos, isolando seus corpos contra o
céu. Ao eliminar grande parte do ambiente e registrar apenas um instante do
movimento, transformou figuras humanas em formas suspensas no espaço. Não vemos
a sequência completa do salto nem necessariamente o local de onde os
mergulhadores partiram. O corpo, embora reconhecível, passa a interessar por
sua posição, contorno e relação com o enquadramento.
A passagem do documentário à
abstração não significou, portanto que Aaron Siskin tivesse deixado de
fotografar a realidade, o que mudou foi sua maneira de utilizá-la. Enquanto os
projetos da Photo League procuravam apresentar informações sobre pessoas,
lugares e condições sociais, suas fotografias posteriores passaram a
privilegiar as relações visuais e as possibilidades expressivas dos próprios
objetos. Essa mudança definiu a linguagem pela qual Siskind se tornou uma
figura importante da fotografia americana do século XX.


Cena da cozinha, Harlem Document,
1937

Dançarinos do Savoy (Harlem
Document), 1937

Harlem Document, 1935

Homem com abajur (Harlem
Document), 1940

Mulher com abajur (Harlem
Document), 1940


Irmãos (Harlem Document), 1935

Fachadas (Harlem Document), 1938

Mercadinho (Harlem Document),
1940

Tabernacle City (1935)

Tabernacle City, 1935


Gloucester (luva), 1944

Chicago 30, 1949

Nova York 2, 1951

Chicago 42, 1952

Pleasures and Terrors of Levitation, 1953/65.



LEITURAS E VÍDEOS RECOMENDADOS
- Aaron Siskind (galeria no site do Art Institute of Chicago)
- Interior Drama – Aaron Siskind’s Photographs of the 1940s (exposição realizada no RISD Museum entre 2003 e 2004 com link para o catálogo publicado em conjunto)
No comments:
Post a Comment