Nas décadas seguintes à
invenção da fotografia, as discussões a respeito de ser ou não arte se
multiplicavam nos mais variados contextos. Na Exposição de Tesouros Artísticos
de Manchester de 1857, elas foram exibidas em conjunto com as obras de arte,
mas na Exposição Nacional de Londres de 1862, foram colocadas na seção dedicada
a equipamentos mecânicos.
A dificuldade de se chegar a
um consenso era grande, mas as tentativas de afirmar seu status artístico eram
ambiciosas. Os críticos mais fervorosos consideravam que a fotografia jamais
poderia ser arte por conta de seu processo mecânico, enquanto seus defensores
argumentavam que, como um pincel, a câmera era apenas uma das várias
ferramentas disponíveis para a produção artística. Esses artistas voltavam seu
olhar para temas comuns na pintura, como paisagens e ruínas e criavam cenários
elaborados, com regras de composição e iluminação. Era preciso demonstrar aos
críticos como a idealização e a imaginação poderiam ser materializadas
fotograficamente.
Fotógrafos como Roger Fenton
(1819-1869) e Oscar Rejlander (1813-1875) fizeram imagens encenadas, muitas
vezes construídas a partir da combinação de múltiplos negativos. Esse método,
conhecido como fotografia composta, era defendido como a ferramenta ideal para
a criação de imagens artísticas, pois permitia amplo controle sobre os diversos
componentes da imagem; seus detratores lamentavam sua artificialidade.
A produção de imagens
conscientemente artísticas prosperou na Inglaterra vitoriana e foi a forma que
os fotógrafos britânicos encontraram para elevar seu status ao de “grande
arte”, combinando um meio essencialmente realista com temas imaginários, em
geral na forma de cenas alegóricas, literárias ou históricas. Fotógrafos e
críticos de opinião semelhante continuaram a defender a ideia à medida em que o
relacionamento da fotografia com as artes tradicionais ia sendo explorado ao
longo das décadas seguintes.
Henry Peach
Robinson – Fading Away, 1858. Em sua primeira impressão combinada, Robinson
fez uma representação dos últimos momentos de uma jovem tuberculosa cercada
pela família. Para o público vitoriano, a imagem evocava não só a realidade da
doença como o romantismo associado a ela (Robinson chegou a apresentar um
estudo da figura central intitulado “Ela Nunca Revelou Seu Amor”). Embora
muitos considerassem perturbador ver a cena mórbida representada em um meio tão
realista quanto a fotografia, os espectadores da época compreendiam que tratava-se
de modelos representando papéis.
Oscar Rejlander – Two ways of life, 1857. Foi uma das mais
ambiciosas e controversas fotografias do século XIX. Trata-se de uma elaborada
alegoria que considera a escolha entre vício e virtude. Rejlander fotografou
cada modelo e fundo separadamente, o que gerou mais de trinta negativos, que
ele combinou em uma única impressão.
Atribuída a William Henry Fox Talbot (1800-1877), às vezes a Nicolaas Henneman (1813-1898) e às vezes a Benjamin Cowderoy (1812-1904) – The Reading Establishment, 1845. Essa fotografia mostra as atividades do Reading Establishment, que era o estúdio fotográfico de Nicolaas Hanneman, que era criado de William Henry Fox Talbot e participou dos seus experimentos que chegaram à invenção do calótipo. Para poder cumprir o que o calótipo prometia, que era a impressão de múltiplas imagens a partir do primeiro negativo, era preciso obter papel em maior quantidade, então Talbot deu apoio a Hanneman para começar a produzi-lo. No centro está Talbot operando a câmera, enquanto à direita, Henneman fotografa uma escultura. Outros empregados estão concentrados nas mais diversas tarefas. Essa fotografia foi feita para divulgar o trabalho do estúdio fotográfico. Foi no Reading Establishment que as impressões do livro The Pencil of Nature, de Talbot, que foi o primeiro livro ilustrado totalmente com fotografias, foram feitas. Foi uma das primeiras fotografias encenadas.
William
Frederick Lake Price - Don Quixote in His Study, 1857. Este tableau
cuidadosamente encenado esteve entre as fotografias vitorianas mais amplamente
admiradas. Price buscou elevar o então ainda novo meio ao nível da “alta
arte”, emulando os temas literários ambiciosos, os gestos expressivos e os
detalhes de época característicos da grande pintura histórica. Embora essa
abordagem tenha sido em grande parte ofuscada, nos anos seguintes, por outra
que valorizava qualidades próprias da visão fotográfica, a encenação teatral
voltou a ganhar relevância no trabalho de muitos artistas contemporâneos.
William Henry Fox Talbot – The Pencil of Nature – publicado
em seis volumes entre 1844 e 1846, foi o primeiro livro ilustrado com
fotografias.
William Lake Price – A Manual of Photographic manipulation, 1858. Lake Price também escreveu A Manual of Photographic Manipulation, and its Various applications to Nature (1858), que foi o primeiro manual de fotografia a oferecer conselhos sobre questões estéticas como composição e iluminação.
Etienne Carjat – Charles Baudelaire, 1963. O poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867) foi um crítico ambivalente da fotografia no século XVIII. Foi famoso por dizer que ela era o “inimigo mortal da arte” em seu Salon de 1859, enquanto servia de modelo para fotógrafos pioneiros. Dizia que a fotografia era o refúgio de todo aspirante a pintor que fosse preguiçoso demais para se dedicar a seus estudos (“Fotógrafos, vocês nunca serão artistas. São meros copiadores.”), enquanto valorizava seu papel a serviço da ciência e da memória. Seu temor era que a precisão mecânica substituiria a imaginação humana e a expressão subjetiva e artística. Paradoxalmente, foi retratado por fotógrafos icônicos como Félix Nadar, que era seu amigo.
Julia Margaret Cameron – Faith, 1864
Julia Margaret Cameron – Julia Jackson, 1867. Cameron
começou a fotografar aos cinquenta anos e buscava retratar emoções nobres,
figuras míticas e heróis da antiguidade. Em muitas fotografias estão seus
parentes e amigos, como Jackson, que era sua sobrinha e de quem ela fez mais de
vinte retratos.
Edgar Degas – Bailarina ajustando a alça de seu vestido,
c.1896. Embora mais conhecido por suas pinturas e esculturas, o artista
utilizou amplamente a fotografia como ferramenta de experimentação visual.
LEITURAS
RECOMENDADAS
- The Reading Establishment (Metropolitan Museum);
- Talbot’s Pencil of Nature: first
published photography book (Bodleian Libraries – video);
- Fading Away (Metropolitan Museum);
No comments:
Post a Comment