“Busco uma leitura complexa do meu trabalho. Tenho
dificuldade em acreditar que uma única fotografia, sozinha, seja suficiente
para encerrar uma ideia.”
Kelli Connell (1974) é uma
fotógrafa e professora no Columbia College Chicago, cujo trabalho artístico se
destaca por investigar temas como identidade, gênero e fluidez das dinâmicas de
relacionamento através de retratos detalhadamente construídos. Estudou
fotografia nas universidades North Texas e Texas Woman’s e, ainda jovem,
passava horas analisando fotolivros como os de Larry Clark, Larry Sultan, Nan
Goldin e William Eggleston. Sentia-se especialmente atraída pela fotografia de
Francesca Woodman. Entre seus projetos mais conhecidos estão Double Life, que é
o assunto desta postagem, e Pictures for Charis.
Iniciada em 2002, a série
Double Life aparenta, a princípio, dizer respeito à documentação de um
relacionamento amoroso entre duas mulheres, mas após olhar algumas imagens o observador
percebe que as duas figuras presentes são a mesma pessoa. A modelo e artista
visual Kiba Jacobson interpreta todos os papéis nas cenas construídas por
Connel que posteriormente são combinadas digitalmente em uma mesma fotografia.
As fotografias têm uma
atmosfera um tanto misteriosa: as personagens não fazem contato visual com a
câmera e parecem estar sempre no meio de alguma atividade, como se fosse uma
cena retirada de um filme. Os ambientes são ao mesmo tempo silenciosos e
tensos, como se elas estivessem isoladas do mundo em meio a um segredo.
Nas exposições, as
fotografias costumam ser montadas em tamanho grande (pelo menos 75 x 100 cm).
No início, Connell trabalhava com filme, usando uma câmera Pentax de médio
formato posicionada em um tripé. Organizava a cena, fotografava Jacobson em
diferentes posições e agia como um stand-in quando necessário. Realizava várias
exposições até encontrar uma combinação convincente de gestos, olhares e
linguagem corporal. Em seguida os negativos eram escaneados e combinados no
Photoshop para criar uma imagem final.
A série funciona como uma
investigação autobiográfica sobre sexualidade, identidade e as múltiplas
versões de nós mesmos que coexistem dentro da experiência humana. Algumas
imagens inclusive sugerem que apenas uma das mulheres é real e a outra fosse
fruto de sua imaginação. É um trabalho que pode ser lido de maneiras diferentes.
É onde a série se torna mais interessante do que um simples exercício
envolvendo Photoshop. Desde a época de Henry Peach Robinson nos primórdios do
pictorialismo, existe a ideia de que o fotógrafo deve lançar mão de todos os
recursos para chegar ao resultado desejado, seja componto as cenas antes do
clique do obturador, seja manipulando a fotografia posteriormente. No caso de
Double Life, a montagem não é uma tentativa de enganar o observador ou obter
perfeição, mas a admissão de algo que sempre esteve presente na fotografia:
mesmo imagens encenadas e manipuladas continuam sendo absorvidas, em um
primeiro momento, como registros verdadeiros pelo simples fato de serem fotografias.
LEITURAS RECOMENDADAS
- Site de Kelli Connell
- Página de Double Life no site de Kelli Connell
- Episódio 73 do podcast Photowork
- Catálogo da exposição realizada em 2021
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