"Para mim, um
dos maiores problemas da fotografia documental pura é a forma como o fotógrafo,
assim como o artista, constrói algo para que pareça um determinado tipo de
comentário social. Por exemplo, é possível fazer uma pessoa parecer miserável,
quando isso representa apenas um aspecto, uma nuance de sua personalidade. Ela
pode simplesmente estar olhando para outra coisa, mas sua expressão pode ser
interpretada como um sinal de uma espécie de depressão em seu comportamento
como um todo. Eu não suportaria a ideia de fotografar pessoas sem
conhecê-las."
Embora a fotografia esteja no centro de sua produção,
Gillian Wearing desenvolve uma obra que também abrange vídeo, instalação e
performance. Formada em arte, faz parte de uma geração de artistas
contemporâneos que adotou a fotografia como uma entre diversas linguagens para
investigar questões como identidade, intimidade, memória, representação e a
tênue fronteira entre realidade e ficção. Desde os anos 1990, seus projetos
colocam pessoas comuns e a própria artista diante da câmera para investigar uma
pergunta recorrente: quanto daquilo que vemos em uma fotografia corresponde
realmente à pessoa retratada?
Nascida em 1963, em Birmingham, Inglaterra, estudou na
Birmingham School of Art, na Chelsea School of Art e posteriormente na
Goldsmiths, University of London, um dos principais centros de formação da
geração de artistas britânicos dos anos 1990. Foi nesse ambiente que sua
produção começou a ganhar visibilidade e seu nome passou a ser associado aos
Young British Artists (YBAs), grupo que renovou a cena artística ao incorporar
linguagens conceituais, vídeo, instalação, fotografia e performance. Em 1997,
recebeu o Turner Prize, um dos mais importantes prêmios da arte contemporânea,
consolidando seu nome entre os artistas mais influentes de sua geração.
Wearing acredita que a fotografia documental nunca é
completamente neutra, porque o fotógrafo escolhe o enquadramento, a expressão,
o contexto e atribui significado ao que registra. Um olhar distraído pode ser
interpretado como tristeza, um gesto casual como sinal de solidão e um instante
isolado como síntese da personalidade inteira de alguém. A fotografia
transforma uma fração de segundo na narrativa toda. Foi essa desconfiança em
relação ao documentário tradicional que a levou a buscar maneiras de reduzir a
distância entre quem fotografa, quem é fotografado e quem observa a imagem. Em
vez de falar pelas pessoas, passou a criar situações nas quais elas próprias
participam da construção de sua representação e, com isso, desloca também o
espectador de uma posição de observador passivo, convidando-o a questionar
aquilo que acredita estar vendo.
Projetos
como Signs That Say What You Want Them to Say and Not Signs That Say What
Someone Else Wants You to Say (1992–1993), em que desconhecidos escrevem
mensagens para serem fotografados, e Confess All on Video. Don't Worry,
You Will Be in Disguise. Intrigued? Call Gillian (1994), que dialoga com a
tradição da arte confessional ao criar um espaço para que estranhos revelem
aspectos íntimos de suas vidas sob a proteção do anonimato, exemplificam essa
estratégia. Em vez de registrar a realidade, Wearing cria dispositivos que
permitem às pessoas participar da construção de sua própria imagem, colocando
em dúvida a ideia de que a fotografia possa revelar uma verdade objetiva.
A mesma investigação aparece em seus autorretratos.
Utilizando máscaras de silicone hiper-realistas, Wearing transforma-se em
diferentes personagens, inclusive em versões de si mesma, para questionar uma
ideia que atravessa toda a sua produção: existe um "eu" verdadeiro
por trás das imagens que apresentamos ao mundo?
Mais do que responder a essa pergunta, sua obra procura mostrar como construímos as histórias que contamos sobre nós mesmos. Seja na fotografia, no vídeo, na instalação ou na escultura, Wearing sugere que a identidade talvez não seja algo fixo, mas um processo contínuo de construção, no qual memória, representação, performance e realidade se confundem.
Signs That Say
What You Want Them To Say and Not Signs That Say What Someone Else Wants You To
Say (1992-1993). Esse é um dos trabalhos mais conhecidos de Wearing, para
o qual ela abordou pessoas aleatórias nas ruas de Londres e pediu que
escrevessem seus pensamentos em uma placa antes de fotografá-los.
Em Confess All on Video. Don’t Worry, You Will Be in Disguise. Intrigued? Call Gillian (1994), Wearing convidou desconhecidos a revelar segredos diante da câmera usando máscaras e recursos que preservassem sua identidade. O paradoxo mostrou que a máscara é, ao mesmo tempo, um instrumento de ocultação e revelação, já que quando deixavam de mostrar o rosto, as pessoas sentiam-se livres para revelar aspectos íntimos de sua vida.
60 Minutes Silence, 1996. Foi a obra que deu a Wearing o
Turner Prize em 1997. Na fotografia, cidadãos comuns britânicos se vestiram
como policiais e tiveram que ficar completamente imóveis por uma hora enquanto
foram filmados. No início, fica a impressão de ser uma imagem estática do
grupo, mas conforme os minutos vão passando, é possível notar pequenos
movimentos e o desconforto dos participantes.
Self-Portrait
as My Father Brian Wearing, 2003. Nos anos 1990, Wearing, se concentrou
em extrair segredos de estranhos, mas nos anos 2000 ela virou sua lente para si
mesma e sua própria história, percebendo que poderia usar máscaras para
explorar sua própria identidade. As máscaras de silicone levam de três a quatro
meses para serem feitas. Cada uma modelada à mão com cabelos e sobrancelhas
aplicados um por um. O que os torna desconcertantes é a parte do olho que
propositalmente é feita grande para que o espectador tenha consciência que, por
detrás da máscara, é Wearing quem está observando.
Self
Portrait at 17 Years Old, 2003
Self
Portrait at Three Years Old, 2004
Self Portrait as My Brother Richard Wearing, 2003
Entre 2008 e 2013, Wearing desenvolveu a série Spiritual Family, na qual utiliza máscaras de silicone, próteses e figurinos para se transformar em artistas que considera parte de sua "família espiritual". Em vez de simplesmente homenagear nomes importantes da história da fotografia e da arte, ela recria retratos icônicos de figuras como Diane Arbus, Robert Mapplethorpe, August Sander, Andy Warhol e Claude Cahun, investigando até que ponto nossa identidade também é construída pelas influências que acumulamos ao longo da vida.
Me as Arbus, 2008
Wearing também tem uma série de instalações permanentes e
projetos públicos, como Diane Arbus, no Doris C. Freedman Plaza no Central
Park, em Nova York.
Self-portrait
of me now in a mask, 2011
Me as a Mask (2013). Para Gillian Wearing, a máscara
simboliza os diferentes papéis que desempenhamos ao longo da vida. Em cada
situação apresentamos versões distintas de nós mesmos. Em vez de esconder a
identidade, essas máscaras sugerem que ela é construída continuamente pelas
relações e pelos contextos em que vivemos.
Me as
Madame and Monsieur Ducham, 2018
Me as
Durer, 2018
Wearing Gillian, 2018. Filme produzido em colaboração com Wieden + Kennedy. O vídeo de cinco minutos utiliza inteligência artificial para enxertar o rosto de Wearing sobre a estrutura óssea de diferentes atores, fazendo com que eles a "vistam". "Meus traços faciais se transformam para se adaptar ao ator; o efeito é simbiótico: parece um pouco comigo e um pouco com os atores", explica Wearing. "Isso não é feito manualmente, mas pela inteligência artificial. Ela decide, por meio de algoritmos, como meus traços serão integrados aos do ator. Meu rosto, combinado ao dos atores, passa então a se mover exatamente como o deles se moveria."
LEITURAS E
VÍDEOS RECOMENDADOS
- Gillian Wearing: Family Stories (elephant, 2017)
- Exposição Gillian Wearing and Claude
Cahun (2017)
- Gillian Wearing Channels a Spiritual
History of Photography (Aperture, 2022)
- Tanya Bondakar Gallery
- Gillian Wearing (The Art Story, 2021)
- Gillian Wearing: Wearing Masks (Guggenheim Museum, 2022)
- Gillian Wearing: Do You Feel You
Know Me a Bit Now?
(elephant, 2018)
- 60 Minutes Silence was Gillian Wearing’s Turner Prize Winning Work (BBC, 2018)
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