Saturday, July 4, 2026

GILLIAN WEARING

 Gillian Wearing Channels a Spiritual History of Photography

"Para mim, um dos maiores problemas da fotografia documental pura é a forma como o fotógrafo, assim como o artista, constrói algo para que pareça um determinado tipo de comentário social. Por exemplo, é possível fazer uma pessoa parecer miserável, quando isso representa apenas um aspecto, uma nuance de sua personalidade. Ela pode simplesmente estar olhando para outra coisa, mas sua expressão pode ser interpretada como um sinal de uma espécie de depressão em seu comportamento como um todo. Eu não suportaria a ideia de fotografar pessoas sem conhecê-las."

Embora a fotografia esteja no centro de sua produção, Gillian Wearing desenvolve uma obra que também abrange vídeo, instalação e performance. Formada em arte, faz parte de uma geração de artistas contemporâneos que adotou a fotografia como uma entre diversas linguagens para investigar questões como identidade, intimidade, memória, representação e a tênue fronteira entre realidade e ficção. Desde os anos 1990, seus projetos colocam pessoas comuns e a própria artista diante da câmera para investigar uma pergunta recorrente: quanto daquilo que vemos em uma fotografia corresponde realmente à pessoa retratada?

Nascida em 1963, em Birmingham, Inglaterra, estudou na Birmingham School of Art, na Chelsea School of Art e posteriormente na Goldsmiths, University of London, um dos principais centros de formação da geração de artistas britânicos dos anos 1990. Foi nesse ambiente que sua produção começou a ganhar visibilidade e seu nome passou a ser associado aos Young British Artists (YBAs), grupo que renovou a cena artística ao incorporar linguagens conceituais, vídeo, instalação, fotografia e performance. Em 1997, recebeu o Turner Prize, um dos mais importantes prêmios da arte contemporânea, consolidando seu nome entre os artistas mais influentes de sua geração.

Wearing acredita que a fotografia documental nunca é completamente neutra, porque o fotógrafo escolhe o enquadramento, a expressão, o contexto e atribui significado ao que registra. Um olhar distraído pode ser interpretado como tristeza, um gesto casual como sinal de solidão e um instante isolado como síntese da personalidade inteira de alguém. A fotografia transforma uma fração de segundo na narrativa toda. Foi essa desconfiança em relação ao documentário tradicional que a levou a buscar maneiras de reduzir a distância entre quem fotografa, quem é fotografado e quem observa a imagem. Em vez de falar pelas pessoas, passou a criar situações nas quais elas próprias participam da construção de sua representação e, com isso, desloca também o espectador de uma posição de observador passivo, convidando-o a questionar aquilo que acredita estar vendo.

Projetos como Signs That Say What You Want Them to Say and Not Signs That Say What Someone Else Wants You to Say (1992–1993), em que desconhecidos escrevem mensagens para serem fotografados, e Confess All on Video. Don't Worry, You Will Be in Disguise. Intrigued? Call Gillian (1994), que dialoga com a tradição da arte confessional ao criar um espaço para que estranhos revelem aspectos íntimos de suas vidas sob a proteção do anonimato, exemplificam essa estratégia. Em vez de registrar a realidade, Wearing cria dispositivos que permitem às pessoas participar da construção de sua própria imagem, colocando em dúvida a ideia de que a fotografia possa revelar uma verdade objetiva.

A mesma investigação aparece em seus autorretratos. Utilizando máscaras de silicone hiper-realistas, Wearing transforma-se em diferentes personagens, inclusive em versões de si mesma, para questionar uma ideia que atravessa toda a sua produção: existe um "eu" verdadeiro por trás das imagens que apresentamos ao mundo?

Mais do que responder a essa pergunta, sua obra procura mostrar como construímos as histórias que contamos sobre nós mesmos. Seja na fotografia, no vídeo, na instalação ou na escultura, Wearing sugere que a identidade talvez não seja algo fixo, mas um processo contínuo de construção, no qual memória, representação, performance e realidade se confundem. 

What did Gillian Wearing's Signs say?Signs that say what you want them to say and not Sig… (1992-1993) by Gillian  Wearing | Artsy

Signs That Say What You Want Them To Say and Not Signs That Say What Someone Else Wants You To Say (1992-1993). Esse é um dos trabalhos mais conhecidos de Wearing, para o qual ela abordou pessoas aleatórias nas ruas de Londres e pediu que escrevessem seus pensamentos em uma placa antes de fotografá-los.

Confess All on Video. Don't Worry, You Will Be in Disguise. Intrigued? Call  Gilliant (1994) | MUBI

Em Confess All on Video. Don’t Worry, You Will Be in Disguise. Intrigued? Call Gillian (1994), Wearing convidou desconhecidos a revelar segredos diante da câmera usando máscaras e recursos que preservassem sua identidade. O paradoxo mostrou que a máscara é, ao mesmo tempo, um instrumento de ocultação e revelação, já que quando deixavam de mostrar o rosto, as pessoas sentiam-se livres para revelar aspectos íntimos de sua vida.  

Gillian Wearing

60 Minutes Silence, 1996. Foi a obra que deu a Wearing o Turner Prize em 1997. Na fotografia, cidadãos comuns britânicos se vestiram como policiais e tiveram que ficar completamente imóveis por uma hora enquanto foram filmados. No início, fica a impressão de ser uma imagem estática do grupo, mas conforme os minutos vão passando, é possível notar pequenos movimentos e o desconforto dos participantes.   

Self-Portrait as My Father Brian Wearing, 2003. Nos anos 1990, Wearing, se concentrou em extrair segredos de estranhos, mas nos anos 2000 ela virou sua lente para si mesma e sua própria história, percebendo que poderia usar máscaras para explorar sua própria identidade. As máscaras de silicone levam de três a quatro meses para serem feitas. Cada uma modelada à mão com cabelos e sobrancelhas aplicados um por um. O que os torna desconcertantes é a parte do olho que propositalmente é feita grande para que o espectador tenha consciência que, por detrás da máscara, é Wearing quem está observando.

Self Portrait at 17 Years Old, 2003

Self Portrait at Three Years Old, 2004

 

Self Portrait as My Brother Richard Wearing, 2003 

Gillian Wearing (English, b. 1963) 'Me as Mapplethorpe' 2009Gillian Wearing Channels a Spiritual History of PhotographyGillian Wearing | Tanya Bonakdar GalleryGillian Wearing's Spiritual Family - Black+White Photography

Entre 2008 e 2013, Wearing desenvolveu a série Spiritual Family, na qual utiliza máscaras de silicone, próteses e figurinos para se transformar em artistas que considera parte de sua "família espiritual". Em vez de simplesmente homenagear nomes importantes da história da fotografia e da arte, ela recria retratos icônicos de figuras como Diane Arbus, Robert Mapplethorpe, August Sander, Andy Warhol e Claude Cahun, investigando até que ponto nossa identidade também é construída pelas influências que acumulamos ao longo da vida.

Gillian Wearing | 'Me as Arbus' | Contemporary Photographs | 2022 |

Me as Arbus, 2008

Gillian Wearing: Diane Arbus | October 20, 2021 - August 14, 2022 | Tanya  Bonakdar Gallery

Wearing também tem uma série de instalações permanentes e projetos públicos, como Diane Arbus, no Doris C. Freedman Plaza no Central Park, em Nova York.

Gillian Wearing (English, b. 1963) 'Self-portrait of me now in a mask' 2011

Self-portrait of me now in a mask, 2011

Gillian Wearing (English, b. 1963) 'Me as mask' 2013

Me as a Mask (2013). Para Gillian Wearing, a máscara simboliza os diferentes papéis que desempenhamos ao longo da vida. Em cada situação apresentamos versões distintas de nós mesmos. Em vez de esconder a identidade, essas máscaras sugerem que ela é construída continuamente pelas relações e pelos contextos em que vivemos.

Gillian Wearing: Do You Feel You Know Me a Bit Now? - ELEPHANT

Me as Madame and Monsieur Ducham, 2018

Gillian Wearing (b. 1963), Britain, Me as Dürer, 2018, framed chromogenic print. © Gillian Wearing, Courtesy of the artist, Maureen Paley, London, Tanya Bonakdar Gallery, New York / Los Angeles, and Regen Projects, Los Angeles

Me as Durer, 2018

Gillian Wearing in collaboration with Wieden + Kennedy 2018 - ELEPHANT

Wearing Gillian, 2018. Filme produzido em colaboração com Wieden + Kennedy. O vídeo de cinco minutos utiliza inteligência artificial para enxertar o rosto de Wearing sobre a estrutura óssea de diferentes atores, fazendo com que eles a "vistam". "Meus traços faciais se transformam para se adaptar ao ator; o efeito é simbiótico: parece um pouco comigo e um pouco com os atores", explica Wearing. "Isso não é feito manualmente, mas pela inteligência artificial. Ela decide, por meio de algoritmos, como meus traços serão integrados aos do ator. Meu rosto, combinado ao dos atores, passa então a se mover exatamente como o deles se moveria." 

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