“O nome deste
Grupo deriva de um número de diafragma da lente fotográfica. Ele representa, em
grande medida, as qualidades de clareza e definição da imagem fotográfica, que
constituem um elemento importante no trabalho dos membros deste Grupo.
O principal
objetivo do Grupo é apresentar, em exposições frequentes, aquilo que considera
a melhor fotografia contemporânea do Oeste; além da exibição do trabalho de
seus membros, incluirá também cópias fotográficas de outros fotógrafos que
demonstrem, em seu trabalho, tendências semelhantes às do Grupo.
O Grupo f.64 não
pretende abranger todo o espectro da fotografia nem indicar, por meio de sua
seleção de membros, qualquer opinião depreciativa em relação aos fotógrafos que
não estejam incluídos em suas exposições. Existe um grande número de fotógrafos
sérios cujo estilo e técnica não se relacionam com o métier do Grupo.
O Grupo f.64
limita seus membros e convidados àqueles que se esforçam para definir a
fotografia como uma forma de arte por meio de uma apresentação simples e
direta, utilizando métodos puramente fotográficos. O Grupo não exibirá, em
nenhum momento, trabalhos que não estejam de acordo com seus padrões de
fotografia pura. A fotografia pura é definida como aquela que não possui
qualidades de técnica, composição ou ideia derivadas de qualquer outra forma de
arte. A produção dos ‘pictorialistas’, por outro lado, indica uma devoção a
princípios artísticos que estão diretamente relacionados à pintura e às artes
gráficas.
Os membros do
Grupo f.64 acreditam que a fotografia, como forma de arte, deve desenvolver-se
segundo linhas definidas pelas realidades e limitações do meio fotográfico,
devendo permanecer sempre independente de convenções ideológicas da arte e da
estética que remetem a um período e a uma cultura anteriores ao desenvolvimento
do próprio meio.
O Grupo apreciará
receber informações sobre qualquer trabalho fotográfico sério que tenha
escapado à sua atenção e é favorável a estabelecer-se como um Fórum da
Fotografia Moderna.”
- Manifesto
exibido na exposição do Grupo f.64 em 1932
O Grupo f.64 foi um coletivo de fotógrafos formado na
Califórnia em 1932 que defendia uma fotografia direta, nítida e baseada nas
características próprias do meio fotográfico. Seu nome fazia alusão à pequena
abertura do diafragma, usada em câmeras de grande formato para obter máxima
profundidade de campo e riqueza de detalhes.
Entre seus integrantes estavam Edward Weston (1886-1958),
Ansel Adams (1902-1984), Imogen Cunningham (1883-1976), Sonya Noskowiak (1900-1975),
John Paul Edwards (1884-1968), Henry Swift (1891-1962) e Willard Van Dyke (1906-1986).
Além dos membros oficiais, fotógrafos como Consuelo Kanaga, Alma Lavenson,
Brett Weston e Preston Holder participaram de exposições ou mantiveram estreita
relação com o grupo.
O grupo surgiu em um momento em que a fotografia ainda
buscava afirmar sua identidade como forma de arte. Durante décadas, muitos
fotógrafos tinham procurado aproximar suas imagens da pintura utilizando foco
suave, manipulações de laboratório e processos que produziam resultados
semelhantes aos das artes gráficas. Esse movimento ficou conhecido como
Pictorialismo. Já os integrantes do f.64 defendiam uma abordagem diferente:
para eles, a fotografia deveria explorar aquilo que lhe era próprio, ou seja, a
capacidade de registrar detalhes com precisão, reproduzir texturas e utilizar a
nitidez como elemento expressivo. Seu manifesto defendia uma fotografia que não
imitasse a técnica, composição ou ideia de outras formas de arte.
Quando o grupo foi fundado, Edward Weston já era uma figura
central na fotografia da costa oeste. Nascido em 1886, era um dos mais velhos
do grupo e reconhecido por seu trabalho. Começou no Pictorialismo, mas muitas
das ideias associadas ao f.64 já estavam presentes em sua obra antes da
fundação do f.64. A partir da década de 1920, especialmente após sua passagem
pelo México, passou a desenvolver uma linguagem baseada na observação direta e
valorização das formas. Seus retratos, estudos de objetos comuns, conchas,
vegetais e paisagens provavam que a fotografia não precisava imitar a pintura
para alcançar expressão artísticas. Nautilus e Pepper No.30 tornaram-se
exemplos emblemáticos dessa abordagem.
Embora o manifesto do grupo estivesse concentrado em
questões formais e estéticas, alguns desses fotógrafos passaram cada vez mais a
utilizar sua câmera para abordar questões sociais, políticas e ambientais.
Muito disso se deu pela influência de Dorothea Lange que, apesar de nunca ter sido
membro, era próxima de seus integrantes. O trabalho de Lange seguia outra
direção, voltada para pessoas e problemas sociais, em especial após a Grande
Depressão iniciou a tradição da fotografia documental nos Estados Unidos, que
teve enorme importância e espaço nas décadas seguintes.
Devido a isso, os integrantes do f.64 acabariam trilhando
caminhos distintos: Ansel Adams se tornou um grande ativista ambiental e atuou
junto ao Sierra Club. Willard Van Dyke se aproximou do documentário social por
meio do cinema e Imogen Cunningham embarcou na fotografia comercial, tornando
sua produção mais diversa e menos presa a definições rígidas.
Edward Weston foi quem se manteve próximo do projeto
estético que ajudou a consolidar, não se interessava por política ou problemas
sociais. Até o final da carreira continuou reafirmando a ideia de que a
fotografia poderia encontrar sua força na arte justamente nas características
próprias do meio.
Apesar
de sua breve duração, o grupo f.64 ocupa um lugar central na história da
fotografia americana. Seus integrantes ajudaram a consolidar a
fotografia direta como uma linguagem artística legítima e influenciaram
gerações de fotógrafos que vieram depois. Mais do que um grupo unido por temas
ou assuntos específicos, o f.64 foi uma reunião de artistas que compartilhavam
uma mesma convicção: a fotografia deveria desenvolver-se a partir de suas
próprias possibilidades, sem depender dos modelos herdados da pintura ou das
artes gráficas.
SOBRE O LIVRO GROUP F.64 DE MARY STREET ALINDER
Imagem da capa
gerada por IA, porque eu tenho a versão para Kindle.
Mary Street Alinder, que também escreveu a biografia de
Ansel Adams, está em posição privilegiada para escrever essa biografia do grupo.
Ex-assistente de Adams, conheceu pessoalmente a maioria dos artistas
apresentados. Esse livro detalha um período transformador na história da
fotografia e da arte e Alinder é uma grande escritora.
MEMBROS DO GRUPO
Edward Weston (1886–1958) foi considerado um dos
nomes mais influentes e inovadores da fotografia do século XX. Iniciou sua
carreira produzindo imagens pictorialistas, mas tornou-se um dos principais
defensores da fotografia direta, caracterizada pela nitidez e riqueza de
detalhes. Ao longo de sua trajetória fotografou paisagens, retratos, nus e
naturezas-mortas, criando algumas das imagens mais icônicas da fotografia
moderna, incluindo seus famosos pimentões, conchas e dunas da Califórnia.
Pepper no. 30, 1930.
Nude in Doorway, 1936
Imogen Cunningham
(1883–1976) foi uma fotógrafa americana cuja carreira atravessou
praticamente todo o século XX. Trabalhou com retratos, estudos botânicos, nus,
fotografia comercial e fotografia de rua, além de lecionar fotografia ao longo
da carreira. É especialmente lembrada pelas fotografias de plantas e flores
produzidas com grande nitidez e riqueza de detalhes, mas também pelos retratos
de artistas, escritores e fotógrafos que documentam a vida cultural americana
de sua época.
Magnolia Blossom,
1925
Frida Kahlo, 1931
Ansel Adams (1902–1984) foi célebre por suas
paisagens do Oeste dos Estados Unidos, especialmente do Parque Nacional de
Yosemite. Defensor da fotografia como forma de expressão artística, desenvolveu
com Fred Archer o Sistema de Zonas, método que permitia controlar com precisão
a exposição e a tonalidade das imagens. Seu trabalho teve grande influência
tanto na fotografia quanto na preservação ambiental.
Cathedral Peak and Lake, Yosemite National Park
Moonrise,
Hernandez, New Mexico
Sonya Noskowiak (1900–1975) foi uma fotógrafa nascida
na Alemanha. Após emigrar para os Estados Unidos, tornou-se assistente e
posteriormente companheira de Edward Weston, desenvolvendo uma carreira própria
marcada por paisagens, retratos e estudos de formas naturais. Embora menos
conhecida que alguns de seus contemporâneos, produziu um conjunto de obras que
exemplifica os princípios da fotografia moderna da Costa Oeste.
Shell, 1937
Edith Hamlin, 1937
Willard Van Dyke (1906–1986) foi fotógrafo, cineasta e curador. Interessou-se inicialmente pela fotografia moderna, produzindo imagens de paisagens e cenas urbanas, mas mais tarde direcionou sua atenção ao cinema documental. Seu trabalho ajudou a aproximar fotografia, cinema e questões sociais em um período de grande transformação cultural nos Estados Unidos.
Fence Post and Barbed Wire, 1930
Ansel Adams at 683
Brockhurst, 1933
John Paul Edwards (1884–1968) foi conhecido principalmente por suas paisagens e estudos da natureza. Menos famoso que outros colegas de sua geração, produziu imagens marcadas pela clareza formal e pela atenção aos detalhes. Sua obra reflete o interesse pela fotografia direta e pela observação cuidadosa do ambiente natural.
Boats and Spars,
1937
Majesty in Death,
1930
Henry Swift (1891–1962) se dedicou à fotografia apenas após estabelecer carreira na área financeira. Produziu principalmente paisagens, cenas naturais e estudos arquitetônicos. Embora tenha deixado uma obra relativamente pequena, suas fotografias são reconhecidas pela precisão técnica e pela forte adesão aos princípios da fotografia moderna.
Strolling
Musician, Spain, 1930
Cabin, Tioga Pass,
1935
TEXTOS E VÍDEOS RECOMENDADOS
- Maior coleção particular de fotografias de Edward Weston vai a leilão em Nova York (revista Zum, 2014)
- Weston 4 Generations – Photography Exhibition at National Steinbeck Center (2016)
- Book Review: Edward Weston – The
Early Years (Musée
Magazine, 2025)
- How Ansel Adams wrote pictorialism
out of photographic history (Peta Pixel, 2016)
- Purifying Photography: Group f.64 (Lomography, 2011)
- Group f.64 (The Art History)
- Group f.64: The Revolution in Focus (Ansel Adams Gallery, 2025)
- Edward Weston – Pepper No.30 (Holden Luntz Gallery)
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