“No começo, achei
que seria uma coisa única. Ele me vendeu um saco enorme. Mas, a cada um ou dois
meses, ele voltava a me ligar e, durante quatro anos, continuei comprando todos
os negativos que ele conseguia. Hoje, o arquivo tem mais de meio milhão de negativos.
Foi assim que tudo começou.”
Thomas Sauvin (n. 1983) é um colecionador,
pesquisador, artista e curador francês, conhecido por seu trabalho com
fotografia vernacular e arquivos fotográficos. Sua atuação envolve a pesquisa,
preservação e reorganização de imagens anônimas e encontradas, que utiliza como
ponto de partida para livros, exposições e projetos realizados em colaboração
com outros artistas.
Em 2009, Sauvin descobriu que grandes quantidades de
negativos descartados em Pequim acabavam em uma usina de reciclagem nos
arredores da cidade. O material era recolhido por catadores e vendido para
extração do nitrato de prata presente nos filmes. Fez um acordo com a usina e
passou a comprar os negativos por quilo antes que fossem destruídos. Desde
então, reuniu quase um milhão de imagens que foram limpas, digitalizadas e
organizadas em um arquivou que chamou de Beijing Silvermine (A Mina de Prata de
Pequim).
“A quantidade de imagens envolvidas me permitiu contar
não apenas histórias individuais, mas algo mais universal. Muitas vezes ouço as
pessoas dizerem que essas imagens mostram uma face da China que elas nunca
tinham visto antes.”
Produzidas principalmente entre 1985 e 2005, as fotografias
são o registro da vida cotidiana dos moradores da cidade, em uma época em que
câmeras e filmes coloridos se tornaram mais acessíveis à população. São imagens
anônimas de casamentos, aniversários, viagens, reuniões familiares, passeios e
novos bens de consumo. Separadas, pertencem a milhares de histórias
particulares; reunidas, formam um registro da maneira como pessoas comuns
fotografavam a própria vida em um período de grandes transformações na China.
Beijing Silvermine tornou-se o projeto mais conhecido de
Sauvin. Um dos primeiros trabalhos extraídos do arquivo foi Until Death Do Us
Part (Até que a Morte nos Separe), publicado em 2015, sobre o papel inesperado
dos cigarros nos casamentos chineses. Como forma de agradecimento, é tradição a
noiva acender um cigarro para cada homem convidado e os noivos também
participam de diferentes brincadeiras envolvendo cigarros na celebração. O
costume carrega um simbolismo peculiar: amor e morte caminham lado a lado.
Sauvin reuniu fotografias desses rituais encontradas nos arquivos e as publicou
em um livro no formato de um maço, reforçando essa associação já presente na
tradição.
O arquivo também deu origem a trabalhos realizados em
colaboração. Com o artista chinês Lei Lei, Sauvin criou projetos a
partir de sequências de fotografias encontradas; com o artista japonês Kensuke
Koike, desenvolveu No More No Less, no qual fotografias do arquivo
foram recortadas e reorganizadas para produzir novas imagens sem acrescentar ou
retirar material das fotografias originais. Em On This Day, realizado
com os suecos Klara Källström e Thobias Fäldt, imagens pessoais do
arquivo foram relacionadas a acontecimentos históricos ocorridos nas mesmas
datas.
Esses trabalhos mostram uma característica importante do Beijing
Silvermine: as fotografias não são tratadas apenas como documentos
individuais. A escala do arquivo permite encontrar repetições que dificilmente
seriam percebidas dentro de um álbum de família: as mesmas poses, situações,
objetos, cenários e maneiras de se colocar diante da câmera aparecem inúmeras
vezes, fotografadas por pessoas diferentes.
O resultado é um arquivo construído a partir de
acontecimentos banais, e não dos grandes episódios políticos e econômicos
normalmente usados para contar a história recente da China. O que aparece são
férias, festas, casamentos, passeios, compras e encontros familiares: aquilo
que seus autores decidiram fotografar e guardar. Imagens que estavam prestes a
ser destruídas acabaram preservando uma história cotidiana de Pequim contada
por milhares de fotógrafos anônimos.
Na página
principal da galeria, as fotografias seguem um sequenciamento particularmente
interessante: começam com bebês e passam por crianças e adolescentes, lembrando
a organização de The Family of Man, de Edward Steichen. Há também relações
cromáticas entre imagens sucessivas, que ajudam a criar uma continuidade visual
ao longo da sequência.
LEITURAS E VÍDEOS RECOMENDADOS
- Site Beijing Silvermine;
- A Whimsical Time Capsule of Everyday
China (Aperture,
2026)
- Thomas Sauvin (1000 Words Mag)
- A Prata da China (Revista Zum, 2020)
- A Prata da China 2 (Revista Zum, 2014)
- Thomas Sauvin and Lei Lei’s
hand-colored gives a new life to old photos (British Journal of Photography, 2017)
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