Como sair da mesmice quando se trata da fotografia no
metrô?
Muitas coisas são fáceis de fazer, mas difíceis de fazer
bem. Na fotografia, isso significa produzir algo interessante e engajante, que
não seja exatamente o que todo mundo está fazendo. Fotografar no metrô é um bom
exemplo disso.
Metrôs e estações são espaços de circulação e permanência
transitória – “não-lugares”, conforme teorizou Marc Augé – atravessados
diariamente por multidões anônimas. Ao mesmo tempo, funcionam como um grande
equalizador, colocando lado a lado pessoas de realidades muito diferentes. Na
proximidade física, há pouca interação: desconhecidos dividem vagões,
plataformas e bancos enquanto evitam contato visual e conversas. Embora essa
dinâmica se repita em diferentes cidades, cada sistema tem uma identidade
visual própria, determinada pela arquitetura das estações, pelas cores, pela
sinalização, pelos trens e por peculiaridades locais. Nesse cenário, o
movimento, a convivência forçada, o anonimato e a própria aparência desses
espaços ajudam a explicar por que o metrô se tornou um assunto tão fértil para
a fotografia urbana.
Hoje em dia, muitos metrôs – São Paulo é um excelente
exemplo disso – são locais relativamente seguros, enquanto as câmeras modernas
resolvem boa parte dos desafios técnicos desses ambientes. ISOs elevados,
estabilização de imagem, disparos contínuos e sistemas de foco eficientes
permitem fotografar em condições que seriam muito mais complicadas algumas
décadas atrás. Isso sem falar nos celulares, que colocaram uma câmera no bolso
de praticamente todo mundo e oferecem centenas de opções de tratamento
instantâneo das imagens.
Há ainda uma facilidade mais óbvia: para muita gente, o
metrô já faz parte da rotina. Não é preciso necessariamente programar uma saída
para fotografar; passageiros passam diariamente por estações e vagões a caminho
do trabalho, da escola ou de outros compromissos, cercados por situações
potencialmente fotografáveis. Essa disponibilidade constante favorece uma
fotografia mais casual e imediata: alguma coisa chama a atenção, a câmera ou o
celular aparece e a foto é feita.
A fotografia no metrô se tornou, assim, uma das
atividades mais democráticas da fotografia urbana. Passageiros, plataformas,
escadas rolantes, túneis, reflexos e arquitetura estão à disposição de qualquer
pessoa com uma câmera ou celular. Conseguir fazer uma foto deixou de ser um
feito; o desafio é produzir uma imagem que não poderia ter sido feita do mesmo
jeito por qualquer outra pessoa parada no mesmo lugar.
É isso que diferencia os fotógrafos reunidos neste post.
Muitos trabalharam em condições menos favoráveis do que as nossas hoje e, ainda
assim, não se limitaram a registrar o que estava facilmente visível diante
deles: encontraram maneiras próprias de fotografar passageiros, trens e
estações e produziram imagens envolventes, reconhecíveis e que continuam
interessantes décadas depois.
Alguns se interessaram pelos passageiros, outros pelas
multidões, pela estética ou pelo confinamento. Alguns procuraram fotografar sem
revelar a presença da câmera, enquanto outros fizeram questão de torná-la
evidente. O metrô estava ali para todos eles; o que fizeram com ele é que
fez a diferença.
Entre 1938 e 1941, Walker Evans produziu centenas de
retratos de passageiros no metrô de Nova York. Seu interesse não estava no
metrô com sua arquitetura, movimento dos trens ou características das estações,
mas em observar as pessoas e, mais especificamente, como elas se comportavam
quando não sabiam que estavam sendo observadas. O metrô oferecia condições
ideais para seu experimento: desconhecidos permaneciam sentados diante de Evans
durante algum tempo, absortos em pensamentos, cansados no final do dia,
simplesmente esperando chegar ao se destino.
Para evitar que soubessem o que estava fazendo, Evans
escondeu sua câmera sob o casaco, deixando apenas a lente exposta e passou um
cabo disparador pela manga até a mão. Fotografava sem olhar pelo visor e com a
luz disponível, usando filmes relativamente lentos para as condições da época.
A limitação técnica fazia parte: Evans abria mão de algum controle sobre a
fotografia para conseguir o que procurava.
Por ter consciência das questões envolvidas em fotografar
pessoas secretamente, esperou mais de vinte anos até mostrar essas fotografias
– segundo ele, a passagem do tempo ajudaria a amenizar a invasão de privacidade
provocada pelo método utilizado. Em 1966, o trabalho ganhou sua apresentação
pública definitiva, quando John Szarkowski, o então diretor de fotografia do
MoMA, selecionou 41 retratos para a exposição Walker Evans’ Subway. No mesm
ano, 89 fotografias foram reunidas no livro Many Are Called.
A distância temporal acrescentou às imagens um valor documental que Evans não podia prever quando realizou o trabalho. As roupas, jornais, gestos e tipos humanos pertencem a uma Nova York que não existe mais. O que continua tornando esses registros interessantes é justamente a pergunta que deu origem a eles: como as pessoas são quando acreditam que ninguém está olhando?
BRUCE DAVIDSON (1933–)
Quando Davidson começou a
fotografar o metrô de Nova York, em 1980, encontrou um sistema muito diferente
daquele que conhecemos hoje. Trens e estações estavam cobertos de graffiti, a
manutenção era precária e a violência fazia parte da experiência cotidiana dos
passageiros. O próprio Davidson sentia medo ao entrar nas estações e chegou a
ser assaltado durante o projeto. Ainda assim, passou anos percorrendo
diferentes linhas, muitas vezes sem um destino determinado, interessado não
apenas nos passageiros, mas em todo aquele ambiente subterrâneo e na maneira
como ele refletia a própria cidade.`
Ao contrário de Evans, não pretendia ser invisível: deixava sua câmera à vista, aproximava-se das pessoas e frequentemente fazia contato com elas. Carregava um pequeno álbum com fotografias já realizadas para mostrar aos passageiros e, em muitos casos, convencê-los a se deixarem retratar. Também usava flash, que tornava sua presença muito mais evidente e acabou se transformando em parte fundamental da aparência de seu trabalho.
Davidson começou Subway em preto e branco, como havia realizado grande parte de seu trabalho anterior, mas logo percebeu que a cor era indispensável para aquilo que estava encontrando. Ela não era novidade para ele: entre seus trabalhos comerciais anteriores estavam ensaios de moda, inclusive para a Vogue. Essa experiência parece ressurgir em algumas imagens de Subway, especialmente nos retratos de mulheres em que roupas, acessórios, gestos e cores ganham uma atenção que por vezes se aproxima da fotografia de moda.
No metrô, porém, Davidson
encontrou uma utilização muito particular para a cor. O graffiti, as roupas dos
passageiros, as superfícies metálicas dos vagões, a iluminação artificial e a
escuridão dos túneis formavam uma paisagem visual que o preto e branco não
conseguia traduzir da mesma maneira. O fotógrafo comparava o efeito produzido
pelo flash sobre aquelas superfícies às fotografias de peixes das grandes
profundidades oceânicas, que parecem ganhar uma iridescência quando iluminados
em meio à escuridão. Era essa atmosfera subterrânea, estranha e intensamente
colorida que procurava explorar. O flash, portanto, não era apenas uma solução
para a falta de luz: tornou-se parte da linguagem visual do projeto.
Publicado pela primeira
vez em livro em 1986, Subway acabou preservando também um momento específico da
história de Nova York. O sistema seria profundamente transformado nas décadas
seguintes e os trens cobertos de graffiti que aparecem nas fotografias praticamente
desapareceriam. Mas o trabalho permaneceu não apenas porque documentou um metrô
que deixou de existir daquela forma. Davidson construiu uma visão própria
daquele universo, na qual cor, graffiti, medo, beleza, proximidade, solidão e
diversidade humana fazem parte da mesma experiência. Se para Evans o metrô
oferecia as condições para observar as pessoas, para Davidson as pessoas e o
próprio metrô eram inseparáveis.
BOB MAZZER (1948–)
Mazzer começou a
fotografar regularmente no metrô de Londres nos anos 1970, quando trabalhava
como projecionista em um cinema pornô na região de King’s Cross e utilizava o
transporte diariamente para ir e voltar do trabalho. Muitas dessas viagens
aconteciam de madrugada, quando encontrava passageiros voltando de bares,
festas e outros programas. Ao contrário de outros fotógrafos falados aqui,
Mazzer não começou com um projeto claramente definido: levava consigo a câmera
porque o metrô fazia parte de sua vida e fotografava aquilo que acontecia ao
seu redor. Só depois de algum tempo percebeu que aquelas imagens começavam a
formar um conjunto e que estava construindo um registro único.
Essa relação cotidiana
com o metrô acabou determinando também sua maneira de fotografar. Mazzer
raramente saía de casa com a intenção específica de procurar imagens no
Underground e chegou a perceber que, quando fazia isso, geralmente voltava sem
boas fotografias. Para ele, o trabalho funcionava justamente quando fotografar
era parte do deslocamento normal. Mantinha a câmera preparada assim que entrava
no metrô e observava o que acontecia ao redor, reagindo rapidamente às
situações que surgiam. Durante boa parte do período utilizou uma pequena Leica
preta, discreta o suficiente para não transformar imediatamente sua relação com
os passageiros.
O que aparece nessas
fotografias é uma crônica da vida que acontecia dentro do metrô. Mazzer se
interessava especialmente pelo comportamento humano e pela intimidade que
surgia naquele espaço público, muitas vezes fotografando situações que duravam apenas
alguns segundos. Estava sempre atento ao que as pessoas faziam enquanto estavam
por ali, mesmo que não obtivesse a composição mais perfeita para suas imagens.
Mazzer fotografou o
Underground durante décadas, com uma concentração particularmente intensa nos
anos 1980 e acumulou milhares de imagens que só foram circular amplamente mais
tarde. Em 2014 parte desse arquivo foi reunida no livro Underground e
apresentada em sua primeira grande exposição individual em Londres. O que ele
registrou em seu trajeto rotineiro se transformou em um registro social de uma
cidade que mudou: roupas, subculturas, hábitos e comportamentos aparecem com
uma espontaneidade difícil de reconstruir posteriormente.
MARTHA COOPER (1943–)
Cooper começou a
fotografar graffiti em Nova York no final dos anos 1970, enquanto era
fotojornalista do New York Post e, parelamente, desenvolvia um projeto sobre
crianças brincando nas ruas do Lower East Side. Foi aí que um garoto chamado
HE3 mostrou a ela seu caderno de desenhos e lhe deu a sugestão de fotografar
graffite. Através de HE3, Cooper conheceu Dondi White, um dos mais conhecidos
graffiti writers da época, que lhe abriu caminho para conhecer melhor aquela
cultura e acompanhar seus artistas. Cooper, aos poucos, começou a compreender
que as inscrições que via pela cidade faziam parte de uma produção muito mais
organizada e elaborada do que havia imaginado. Se interessou pelo processo como
um tudo: os esboços, códigos entre os writers, escolha das cores, a entrada
clandestina em pátios e execução das peças em trens.
Passou então a acompanhar
esses artistas e a fotografar tanto a produção quanto os trens em circulação.
Fazia isso com um senso de urgência, porque o graffiti era efêmero,uma peça
podia ser coberta por outra, se deteriorar ou ser removida pela companhia de
transporte. Muitas vezes, permanecia intacta por pouco tempo. Suas fotografias
registraram a arte e o contexto em que elas existiam: trens atravessando
bairros, pátios, estações e os próprios artistas.
Foi nesse período que
conheceu Henry Chalfant (1940-), fotógrafo e documentarista que também estava
registrando sistematicamente o graffiti nos trens de Nova York. Ele estava
particularmente interessado e fotografar os próprios vagões, então desenvolveu
um método para fotografá-los lateralmente em movimento, fazendo imagens
sucessivas que depois reconstruía para construir visualmente um trem inteiro.
Cooper, por sua vez, tinha maior interesse pelos artistas e pelo contexto em
que aquela produção acontecia. Ao perceberem que seus arquivos se
complementavam, passaram a trabalhar juntos.
Após tentarem
separadamente publicar livros sobre o assunto e encontrarem poucos interesses
das editoras de Nova York, Cooper e Chaufant uniram forças. Subway Art foi
publicado em 1984 pela Thames & Hudson.
Mais do que registrar o
transporte de Nova York, Cooper percebeu que havia uma cultura acontecendo
diante de seus olhos, procurou compreendê-la e obteve acesso a quem a produzia.
Décadas depois, aqueles trens pintados já haviam desaparecido, mas suas fotografias
permanecem como imagens de uma cidade que não existe mais, além da importância
para a própria história do graffiti.
MICHAEL WOLF (1954–2019)
Em 1995, Wolf estava em Tóquio
trabalhando para a revista Stern quando fotografou seis passageiros através das
janelas de um trem. Guardou então essas imagens em uma pasta de possíveis
projetos futuros e, anos depois, decidiu voltar a essa ideia.
A estação de
Shimo-Kitazawa, onde tirou as fotos, tinha uma característica arquitetônica que
permitia que Wolf Ficasse diretamente diante das janelas do lado do trem em que
as portas não abriam. No horário de pico, ele podia se posicionar a poucos centímetros
do vidro e fotografar passageiros comprimidos pela lotação sem que eles
tivessem para onde se afastar. Alguns fechavam os olhos ou tentavam esconder o
rosto e Wolf tinha consciência do desconforto que estava causando, que
considerava o questionamento sobre a invasividade da fotografia uma parte desse
trabalho.
Voltou à mesma estação
repetidamente durante quatro anos. Fotografava pela manhã, quando os trens
chegavam em intervalos de oitenta segundos. Passou a concentrar seu
enquadramento nos rostos, criando uma tipologia de faces que, ao mesmo tempo,
era uma metáfora da vida em uma metrópole densamente habitada. Os rostos
pressionados contra as janelas embaçadas passavam a sensação de confinamento
mesmo sem mostrar o entorno desses passageiros.
Em 2013, aquela linha foi
transferida para o subterrâneo e a configuração da estação que tinha
possibilitado as fotografias deixou de existir, o que obrigou a Wolf encerrar esse
projeto, ao mesmo tempo em que reforçou seu valor documental.
A lista não termina aqui.
Inúmeros fotógrafos produziram trabalhos interessantes em metrôs e estações,
mas não foram citados porque o tema ocupa um espaço menor em suas trajetórias
ou são parte de projetos mais amplos. Helen Levitt acompanhava Walker Evans em
algumas de suas incursões pelo metrô de Nova York, então tirava as próprias
fotos de passageiros com uma abordagem diferente. Luc Delahaye, décadas depois,
retomou a ideia de Evans da fotografia de passageiros do metrô de Paris em L’Autre,
enquanto Alexey Titarenko utilizou as entradas e saídas das estações de São
Petersburgo em algumas das imagens mais conhecidas de City of Shadow.
Stanley Kubrick, Eddo
Hartmann, Andre D. Wagner e Jamel Shabazz também fotografaram esses espaços em
diferentes momentos de suas trajetórias. Entre os fotógrafos brasileiros, Júlio
Bittencourt levou a investigação sobre densidade populacional de Plethora para
o metrô de Tóqui, enquanto Rogério Canella registrou os canteiros de construção
da Linha 4-Amarela do metrô de São Paulo.
LEITURAS E VÍDEOS RECOMENDADOS:
- Take the J Train (matéria da Aperture de 2018 sobre Andre D. Wagner)
- Alexey Titarenko – City of Shadows
- Bruce Davidson – Subway (Magnum Photos)
- Tokyo Subway – Julio Bittencourt
- Life from a Tube: The London
Underground (vídeo-entrevista
com Bob Mazzer, Lens Culture, nov/2015)
- Michael Wolf – Tokyo Compression (Lens Culture);
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