Thursday, November 27, 2025

DAWOUD BEY

“O mais importante é criar um trabalho significativo, algo que coloque no mundo aquilo que realmente tenha consequência.” — Dawoud Bey

Dawoud Bey (n. 1953, Nova York) cresceu em Queens e formou seu olhar num período em que o Harlem se consolidava como referência cultural e política. Adolescente, foi à exposição Harlem on My Mind (1969), no Metropolitan Museum of Art, acreditando que haveria um protesto do lado de fora — críticas ao projeto curatorial, que excluía artistas negros, eram intensas. O protesto não ocorreu, mas a visita mudou seu percurso: ali descobriu os retratos de James Van Der Zee (1886–1983), fotógrafo de estúdio que, nas décadas de 1920 e 1930, registrou a classe média e a elite do Harlem com precisão e elegância.

Além de Van Der Zee, Bey foi marcado por Richard Avedon, Irving Penn, Gordon Parks e Roy DeCarava. Parks e, sobretudo, DeCarava demonstraram que o retrato podia articular sensibilidade, fricção social e rigor formal. Para Bey, fotografia passou a significar relação: estar diante do outro com atenção e clareza.

Estudou na School of Visual Arts e concluiu o mestrado na Yale University School of Art. Tornou-se também professor — principalmente no Columbia College Chicago, onde lecionou por mais de vinte anos e consolidou uma reputação de mentor atento, centrado na ética do encontro e na responsabilidade de representar comunidades com precisão e respeito.

Sua primeira série relevante, Harlem, U.S.A. (1975–1979), atualizou a tradição visual do bairro ao fotografar moradores em preto e branco, agora em ambientes cotidianos e fora do estúdio. Em Class Pictures (2002–2006), retratou adolescentes em escolas públicas e pediu que cada estudante escrevesse um texto sobre si mesmo, criando um conjunto que combina imagem, autorrepresentação e escuta.

Em The Birmingham Project (2012), revisitou o atentado à Igreja Batista da 16ª Rua, em 1963. Bey produziu retratos que colocam lado a lado crianças da idade das vítimas e adultos da idade que teriam hoje — uma estrutura simples, mas contundente, que evidencia a passagem do tempo e a permanência do trauma histórico.

Em Night Coming Tenderly, Black (2017), voltou-se para paisagens do norte de Ohio associadas ao Underground Railroad. São imagens de tons profundos, quase monocromáticos, que tratam a escuridão como estratégia visual e histórica, deslocando o foco do retrato para a experiência espacial.

Bey publicou diversos livros, entre eles Dawoud Bey on Photographing People and Communities (Aperture, 2019), da série Photography Workshop. A obra sintetiza princípios centrais de sua prática: responsabilidade, clareza ética e construção de relações reais com os fotografados.

Ao longo de cinco décadas, Bey consolidou-se como um fotógrafo interessado em dignidade, contexto e precisão. Sua relação com temas ligados à justiça social não se traduz em slogans, mas em método: aproximar-se, observar com cuidado e produzir retratos que devolvem às pessoas a sua complexidade.



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Monday, November 17, 2025

SARAH MEISTER: BASTIDORES QUE MOLDARAM A FOTOGRAFIA CONTEMPORÂNEA

A história da fotografia não é feita apenas pelos fotógrafos que empunham a câmera, mas também pelos curadores que decidem como essas imagens serão vistas, interpretadas e lembradas. Nesse território de bastidores decisivos, Sarah Meister ocupa um lugar singular.

Nascida em 1971, Meister ingressou no Museum of Modern Art de Nova York em 1997, onde construiu uma carreira sólida até se tornar curadora de fotografia. Sua atuação foi marcada por um olhar atento tanto ao cânone quanto às margens, revisitando nomes consagrados como Walker Evans, Dorothea Lange e Gordon Parks, mas sempre buscando novas leituras capazes de conectar passado e presente. Em 2020, por exemplo, foi responsável pela grande retrospectiva “Dorothea Lange: Words & Pictures”, a primeira dedicada à fotógrafa no MoMA desde 1966. A mostra, que reunia mais de uma centena de obras e documentos, teve parte de sua recepção comprometida pela pandemia, mas permanece como um marco de seu trabalho curatorial.

Durante o período em que esteve no MoMA, Meister também construiu uma ponte rara e consistente entre a instituição e a fotografia brasileira. Esse vínculo se materializou em iniciativas que marcaram época:

  • Aquisições importantes: articulou a entrada de obras de fotógrafos brasileiros no acervo, não apenas os óbvios (como Sebastião Salgado e Claudia Andujar), mas também nomes menos conhecidos internacionalmente, como Luiz Braga e Marc Ferrez.

  • Exposição e publicações: foi co-curadora de “Fotoclubismo: Brazilian Modernist Photography, 1946–1964” (2021), uma das mostras mais relevantes sobre fotografia brasileira já realizadas fora do país. O projeto trouxe à tona o Foto-Cine Clube Bandeirante, destacando sua conexão com as vanguardas internacionais e, ao mesmo tempo, sua identidade própria.

  • Trabalho de pesquisa de longo prazo: sua dedicação não se limitou a uma mostra pontual; envolveu pesquisa em arquivos, contatos com fotógrafos, colecionadores e curadores brasileiros, além de palestras no Brasil.

  • Ampliação de narrativas: incluir a fotografia brasileira, para Meister, não era gesto de correção geopolítica, mas reconhecimento de uma modernidade visual que dialoga diretamente com o centro, embora muitas vezes mantida à margem das histórias oficiais.

A partir de 2021, com sua saída do MoMA, Meister entrou em uma nova fase. Assumiu a direção executiva da Aperture Foundation, uma das instituições mais influentes na circulação e no pensamento da fotografia contemporânea. Essa mudança marcou não apenas um deslocamento institucional, mas também uma ampliação de sua atuação. Na Aperture, Meister passou a lidar com um ecossistema mais amplo: publicações, bolsas, programas educativos, podcasts, formação de público — e, sobretudo, a construção de um espaço editorial que articula múltiplas geografias da imagem.

Sob sua liderança, a Aperture reforçou o interesse por narrativas globais, ampliou parcerias internacionais e modernizou seus programas de apoio a artistas. A instituição passou a operar com uma atenção renovada ao diálogo entre arquivos históricos e produção contemporânea, sem perder o rigor crítico que caracteriza suas edições. Meister transformou a fundação em uma plataforma que não apenas apresenta trabalhos, mas também pensa a fotografia — seus contextos, suas disputas simbólicas, seus futuros possíveis.

Ao longo de sua trajetória, tanto no MoMA quanto na Aperture, Sarah Meister demonstrou que a fotografia se constrói tanto diante da câmera quanto nas escolhas que moldam sua circulação. Seus gestos curatoriais não apenas preservaram a história, mas também a ampliaram — redesenhando fronteiras, reposicionando olhares e garantindo que outras geografias da fotografia passem a ocupar o centro da narrativa.

Com German Lorca

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