Sunday, December 14, 2025

LEE FRIEDLANDER: CHRISTMAS


"The world makes up my pictures, not me." - Lee Friedlander

Lee Friedlander é, sem dúvida, um dos maiores fotógrafos de rua, com uma carreira que já soma mais de 70 anos. Nascido em Aberdeen, WA em 1934, começou a se interessar por fotografia aos catorze anos.

Seu estilo se insere na mesma tradição documental praticada por Walker Evans e Robert Frank: uma abordagem que privilegia a observação direta do mundo sem intervenção, registrando a vida cotidiana com fidelidade. O que diferencia Friedlander  é que, mesmo fazendo fotografias de rua, ele mantém uma atenção constante entre ele mesmo, o fotógrafo, e o plano da imagem, que é tão importante quanto o assunto fotografado – muitas vezes uma rua vazia, uma vitrine ou algum elemento banal das ruas. Costuma também se incluir nas fotos como uma sombra ou reflexo, o que cria uma estranheza e um certo desconforto para quem observa essas imagens.

Christmas é um livro bem recente, foi publicado em outubro pela Eakins Press Foundation. Contém 112 páginas e texto final escrito por Peter Kayafas, fotógrafo e diretor-presidente da editora. Além do livro, a exposição Lee Friedlander: Christmas está em cartaz na galeria Deborah Bell em Nova York, feita em conjunto com a galeria Fraenkel de São Francisco e a Luhring Augustine.

Nessas imagens, selecionadas de seu imenso acervo que certamente contém centenas de milhares de fotografias, é possível ver o Natal como visto por ele em seu estilo já familiar: enquanto passava pelos lugares mais variados dos EUA registrando ruas, casas, comércio. Ele nos mostra que o Natal é parte da cultura americana, quer a pessoa seja adepta ou não, seus sinais simplesmente estão em todos os lugares.

Se desejar ler mais sobre Lee Friedlander, clique AQUI.

Saturday, December 13, 2025

O ÁLBUM DE NATAL DA FAMÍLIA DE TRENT PARKE

“Comecei a pensar no quanto famílias, o subúrbio, a vida, o vômito e, em particular o Natal, eram estranhos” – Trent Parke

Trent Parke nasceu em 1971 em Newcastle, na Austrália. Aos doze anos tirava fotos usando uma câmera de 35mm da sua mãe e usando a lavanderia da família como quarto escuro. Iniciou sua carreira como fotojornalista para o The Australian, entrou para o coletivo de rua In-Public em 2001 e se tornou membro da Magnum em 2007. É considerado um dos fotógrafos mais inovadores da sua geração e entre seus projetos mais conhecidos estão Dream/Life (1999), Minutes to Midnight (2013) e The Christimas Tree Bucket (2014). Sua obra é inovadora e transita entre o documental e o artístico, construindo um retrato emocional e psicológico de sua terra natal.

THE CHRISTMAS TREE BUCKET

Trent e sua mulher, Narelle, viviam em um apartamento pequeno em Sydney e, quando o segundo filho nasceu em 2006, esse apartamento ficou ainda menor para acomodar todos. Decidiram se mudar para Adelaide, cidade de origem de Narelle na qual a família dela ainda residia.

Deixaram as coisas do antigo apartamento em um depósito e foram morar provisoriamente na casa dos sogros de Parke no subúrbio até encontrarem um local para morar. O nome desse projeto vem de um episódio específico: após cortar o cabelo em um shopping, Parke passou mal e vomitou no baldo destinado a acomodar a árvore de Natal! As fotos desse momento foram feitas por Narelle que costuma colaborar com ele em outros projetos.

Embora seja a história mais bizarra do período, as fotos de Parke mostram a convivência forçada entre adultos, crianças enlouquecidas com o Natal, a correria para organizar tudo a tempo, o consumismo descontrolado. Acima de tudo, a estranheza de comemorar a data seguindo as tradições do hemisfério norte em pleno verão do sul – algo que nós brasileiros entendemos bem!

As fotografias são coloridas e saturadas, carregam um tom levemente sombrio, evidente  sobretudo nas expressões de adultos e crianças. Algumas situações — como a história do balde — são genuinamente engraçadas, e Parke registrou vários momentos absurdos que aconteceram no meio da rotina. Embora tenham aparência de snapshot de família, as imagens são cuidadosamente compostas. O uso do flash, preciso e direto, reforça essa mistura de humor, caos e exaustão que permeia a série.

Em The Christmas Tree Bucket, Parke - que já vinha se esforçando para registrar o cotidiano de sua família desde o nascimento do primeiro filho - mostra a importância de fotografar sem esperar momentos especiais ou perfeitos. São fragmentos que definem quem somos e como vivemos e provavelmente são o que valerá a pena lembrar no futuro. É o tipo de documento que só existe porque alguém decidiu prestar atenção justamente quando nada parecia especial.


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Monday, December 1, 2025

TATEWAKI NIO

Tatewaki Nio nasceu em 1971, em Kobe, no Japão. Formou-se em sociologia pela Universidade Sophia, em Tóquio, e mais tarde estudou fotografia no Senac-SP. Antes de chegar ao Brasil, nos anos 1990, viveu em diferentes cidades africanas — período que ampliou seu interesse pela história do tráfico de escravos e pelos vestígios deixados por ela nas paisagens urbanas.

Instalado no Brasil há mais de duas décadas, Nio construiu uma obra dedicada sobretudo à arquitetura das grandes cidades e às formas como ela estrutura a vida cotidiana. Seu trabalho se destaca pela observação paciente e pelo rigor na documentação dos espaços, atento às marcas do passado e às transformações contínuas do ambiente construído.

Em 2016, participou da residência fotográfica do Musée du Quai Branly, em Paris. Nos anos seguintes, integrou exposições importantes — entre elas Histórias Afro-Atlânticas (2018) e Ecos do Atlântico Sul (2019). Em 2016 foi capa da Revista Zum #10 e em em 2017, recebeu a Bolsa ZUM/IMS.

PROJETOS EM DESTAQUE

Espiral do Atlântico Sul - Projeto desenvolvido a partir da Bolsa de Fotografia ZUM/IMS 2017, originalmente sob o nome Conexão São Paulo–Lagos. Parte de imagens de Pierre Verger sobre casas erguidas por ex-escravizados retornados do Brasil à África e examina vínculos históricos ainda perceptíveis entre Lagos e São Paulo. Reúne três séries: As Pegadas dos Retornados, Megacidades e Estou Aqui, Sou Daqui.

Neo-AndinaSérie em que Nio registra a arquitetura chamativa de El Alto, na Bolívia — um fenômeno recente que combina referências andinas e pré-hispânicas com soluções visuais exuberantes, às vezes quase kitsch. As imagens revelaram a força desse repertório arquitetônico emergente e lhe renderam a capa da Revista ZUM #10 (2016), acompanhada de texto de Nelson Brissac Peixoto.

Escultura do InconscienteTrabalho que acompanha a transformação física da cidade, observando momentos de desgaste, demolição e reconstrução. Nio registra estruturas em colapso ou em obra como paisagens transitórias, marcadas por camadas visuais que revelam as mudanças constantes do espaço urbano.

Parques UrbanosConjunto de trabalhos dedicados às áreas verdes de São Paulo, que resultou em livro publicado. Nio observa o uso cotidiano desses espaços e como eles funcionam como contraponto à densidade da metrópole.

Crônica das CoresSérie realizada em um único dia, entre os escombros de uma favela demolida em São Paulo. Fotografado apenas com cores primárias e secundárias, o projeto registra fragmentos desse cenário provisório e constrói um inventário visual a partir do que restou no terreno.

Atualmente, Tatewaki Nio tem uma mostra em cartaz no Centro MariAntonia da USP, Neo-Andina 15–25, que reúne imagens produzidas ao longo de uma década em El Alto, na Bolívia. A exposição articula a arquitetura marcante da cidade com a presença boliviana em São Paulo — hoje a maior comunidade estrangeira da capital — destacando como muitos dos imigrantes vêm justamente da região de El Alto.

VÍDEOS EM DESTAQUE:

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