“Tinha muita coisa que eu não sabia
para chegar em Birmingham e fazer um trabalho com base no que eu sabia”
Em 1964, os pais do fotógrafo Dawoud Bey (1953-) foram a um
evento em sua igreja no Queens para ouvir o escritor James Baldwin em um ato
público pelos direitos civis. Levaram para casa um livro que estava sendo
vendido no local para angariar fundos, The Movement – Documentário de uma
Luta por Igualdade de Lorraine Hansberry.
Uma imagem em particular abalou profundamente Bey: a foto da
menina Sarah Jean Collins em uma cama de hospital, ferida e com ambos os olhos
cobertos com curativos. No ano anterior, no dia 15 de setembro, tinha ocorrido
um ataque a bomba à Igreja Batista da rua 16 em Birmingham, no Alabama. Membros
da Ku Klux Klan plantaram bastões de dinamite ligados a um temporizador sob as
escadas do templo. Vinte pessoas ficaram feridas e quatro meninas morreram, uma
delas era a irmã de Sarah Jean que sobreviveu, mas perdeu parcialmente a visão.
Frank
Dandridge – Time & Life Pictures
Bey conta que um dia, quando já era adulto, acordou
sobressaltado com essa fotografia na mente e lembrou do atentado, sentindo que
precisava ir a Birmingham confrontar essa história. Até então, não sabia quase
nada a respeito do lugar, sequer tinha estado lá.
Durante seis anos, fez inúmeras visitas à cidade, dedicando
tempo especialmente ao Instituto de Direitos Civis que possuía um arquivo
extenso sobre o ataque de 1963. Em sua pesquisa, descobriu que além da trágica
morte das quatro meninas, dois adolescentes negros foram brutalmente assassinados
após a explosão. Seu projeto, então, visava homenagear os seis jovens
vitimizados nesse dia.
Deparou-se, então, com a questão: como trazer o passado para
os dias atuais de forma palpável? Como materializar a breve existência dessas
pessoas?
Decidiu fazer retratos de adolescentes negros, meninos e
meninas que tivessem a mesma idade deles. Seu objetivo era criar uma presença
concreta desses jovens nos dias atuais, mostrando o quanto havia sido perdido
com as suas mortes. Além disso, fotografou adultos negros, homens e mulheres
que tinham a idade deles em 1963, para dar uma ideia de como aqueles jovens
seriam hoje se suas vidas não tivessem sido interrompidas. Para sinalizar a
passagem do tempo, Bey montou dípticos com a fotografia de um jovem ao lado da
foto de um adulto do mesmo sexo e escolheu dois lugares historicamente
significativos para fazer essas imagens: a Igreja Batista História Bethel e o
Museu de Arte de Birmingham.
O museu, de antemão, já havia se interessado em financiar
esse trabalho com o objetivo de realizar em suas dependências uma exposição na
conclusão dele. Bey passou seis meses fazendo os retratos. Foi preciso colocar
anúncios em jornais locais, pequenos negócios e nas redes sociais para
conseguir as pessoas com as características que precisava. Dezenas de pessoas
foram fotografadas, era preciso que cada uma das fotos fortalecesse o seu par.
Para facilitar o processo, tirou instantâneos que o ajudaram a ir montando o
quebra-cabeça. No final, tinha 16 pares de fotos que funcionaram.
No ano que a exposição ocorreu, 2013, havia-se completado
cinquenta anos desde que o atentado ocorreu. Além da exposição, Bey produziu o
vídeo 9.15.63 e um livro foi publicado pelo museu. Em 2023, The Birmingham
Project foi revisitado tendo uma nova exposição e foi lançada uma nova edição
do livro.
LEITURAS RECOMENDADAS:
- Post sobre Dawoud Bey (Falando de Fotografia com Gigi, nov/2025);
- Dawoud Bey: The Birmingham Project (National Gallery of Art);
- Dawoud Bey: The Birmingham Project (Exposição realizada entre 2023-24 no Birmingham Museum of Art em Birmingham, Alabama);
- A menina que viveu: Retrato de uma sobrevivente de ataque a bomba em uma igreja de Birmingham, 1963 (Time Magazine)
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